quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

VERO, O VEROSSÍMIL EM NOITE FELIZ


A dissimulação, a futilidade, a hipocrisia e a cara de pau das pessoas, exercem o efeito arrasador da descarga de uma bomba de néutrons nas partículas cerebrais, sensíveis e pouco pacientes do Vero.

Aconselhado a procurar ajuda profissional, tornou-se avesso à festas e reuniões sociais. “Não sou homem de falsidades ideológicas. Muito menos verbais. Não tenho paciência para mentiras e se não querem ouvir a resposta, não façam a pergunta.”
Contar com presença tão transparente em algum evento, era e é, tarefa de gincana.
Abandonara uma carreira promissora na medicina por causa da postura direta e objetiva.
- Não aconselharia a senhora a fazer uma cirurgia plástica nas suas condições.
- Quais seriam os riscos doutor?
- Riscos? Afirmo sem medo de errar que eu estaria desperdiçando meu tempo.
- Desculpe. Mas preciso ouvir uma segunda opinião.
- Muito bem. A senhora também além de burra e surda, e é uma catástrofe de tão feia!”
Depois de anos, acreditando na recuperação de Vero, seria conveniente reunir a família, na sua casa e organizar a ceia de Natal. Uma forma de devolvê-lo ao convívio social.
Incontáveis recomendações para que se contivesse, do contrário, passaria a dormir na soleira da porta abraçado no cachorro.
Eis que é chegada a hora. Fazia frio lá fora.
Ainda assim, por várias vezes pensou em emitir opinião. “Umazinha” que fosse.
Tudo corria bem. Para as vítimas do Vero, que até então se consumia em cólicas com os horrores de linguagem que ali proliferavam em absurda abundância.
Foi a cunhada, casada com o assessor de candidato a alguma coisa que apertara a tecla “over”.
- Paiê. Não é verdade que continuamos em lua-de-mel após quinze anos de casamento?
A inevitável dissimulação.
- Com certeza. Estamos passando por momentos de profundas e verdadeiras transformações por conta de uma nova estratégia de desenvolvimento acelerado e futurista onde o grande beneficiado é sem dúvida, o nosso contribuinte partícipe.
Uma gota gélida de suor escorre pela fronte pálida; desce rasgando a carne até atingir a genitália em total consumição. Alguns segundos e a explosão se dá em proporções devastadoras. Foi demais. Dentro da própria casa?
Agenor, “o cão bull mastiff babão” de quase cem quilos iria ganhar companhia.
Vero começou a coçar os pés esfregando um no outro e a se retorcer todo na cadeira. Subiu um vermelhão pelo pescoço e nas orelhas estava concentrado quase todo o sangue do corpo. Num salto arrancou a cortina da sala dobrando-a grosseiramente como quem junta lençóis da cama depois de ouvir um: “Fora daqui!”
Já em direção a porta encarou aquele amontoado de cínicos aparvalhados e desferiu:
- Podem até mentir, mas pelo menos façam isso com alguma responsabilidade.
A esposa desmaiou.
Vero olhou para o irmão que tentou se esconder atrás da samambaia.
- Primeiro: Você sempre foi um cretino e agora se mostra um frouxo que não tem coragem de dizer a verdade. Bando de safados! Vocês, metidos até as entranhas em política, não tem currículo, tem antecedentes. E aquilo que denominam de coligações e alianças, eu chamo de quadrilha.
- Segundo: Você é um doente. Nenhum homem de sã consciência seria capaz de comer este bagulho aí por quinze anos.
A irmã mais velha tentou reagir mas resolveu recuar sob aquele olhar ameaçador. Não adiantou.
“Pouca vergonha! Uma mulher de cinqüenta e tantos anos que pensa que salão de beleza é o túnel do tempo. Usa os modelitos das netas e vai sacudir os mondongos nos bailinhos por aí, onde até as pernas das mesas tem varizes. E o marido, corno, pensa que ela é assistente social de uma ONG para terceira idade.”
A esposa volta a si.
- Perdi alguma coisa?
Não deveria ter recobrado os sentidos. Muito menos ter proferido a questão.
-Perdeu sim . A noção do ridículo. Onde já viu uma mulher do teu tamanho e peso usar vestidos estampados. Parece um sofá de seis lugares!

Dos parentes nunca mais se ouviu falar.
Agenor, o cão, fugiu para o canil municipal.
Se recusa terminantemente ser fotografado de corpo inteiro.
Ah... Da politicalha? Todos. Sem exceção, dizem: 

- Vero é tão somente um sujeito...assim...um tanto...“folclórico”.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A LISTA

Com a eminente proximidade e antecipação das atividades natalinas, lembranças incertas dos tempos de criança me remetem a aquela sensação nostálgica.
Como tudo nesta “farra globalizada”;
-Quem se inscreve antes, tem maior chance de ser atendido,
minha magia é a de acreditar em Papai Noel.
Assim, ressoam os constantes lembretes (ou ameaças):
-“Quem não se comportar não ganha presente do Papai Noel”.
Portanto, estariam os próximos trinta dias reservados exclusivamente a árdua tarefa de fazer com que os diabinhos que habitavam os meus ouvidos se mantivessem resguardados.
A empreitada dava-se em contagem regressiva.
De quando em vez, um capetinha conseguia dissuadir a vigilância e escapulia a fim de fazer alguma traquinagem.
Quando dava para incriminar alguém , tudo certo. Do contrário, lá se iam alguns pedidos para “Papai Noel” acompanhado de castigo, mais umas varadas daquele tio retardado que se vestia de “mau velhinho” e cultivava o fetiche de bater nos filhos dele, e dos outros, na frente de todo mundo.
Eu sempre fui muito liberal com os meus “demoniozinhos”. Meus primos e primas sempre apanhavam primeiro por minha causa. Eu sempre começava a chorar antes prá apanhar menos e depois deles.
Após o massacre da “natividade” vinham os tais dos presentes. Era um misto de soluçar com a sensação de alívio e uma ponta de alegria reprimida. Quem tivesse a sorte de ganhar uma bicicleta, teria o azar de esperar pelo menos uns dois dias para usar o brinquedo; a bunda estava aos frangalhos dos varadas do “Tio Noel”.
Pois esta nostalgia incomum despertou-me o espírito natalino, e resolvi, também eu, mandar minha lista para o Papai Noel.
Para empreender esta tarefa usei o critério do “mau comportamento”.
Pedido feito = “a surra”. Valendo soco nos beiços de mão fechada!
Minha lista dos que tem que virar de costas e baixar as calças prá apanhar na bunda é a seguinte:

- O rabino Sobel, que emporcalhou a comunidade judaica roubando gravatas, tem que rezar o “Creio em Deus Pai” no Maracanã lotado abraçado no Padre Marcelo e depois cantar “Erguei as Mãos”;


- O Papa Bento XVI só por ter vindo ao Brasil, tem que ir a pé a Jeruzalém e ficar batendo com a cabeça no muro das lamentações até o muro rachar, com a “torá” embaixo do braço;

-A Madonna, que insatisfeita com a fama de POP-STAR resolve que quer ser a Maria Madalena só prá comer JESUS, esta tem que ajoelhar no milho;

- A “Yeda Credo in Crusyus” por aniquilar o que sobrara do Rio Grande Amado, vai ter que fazer caminhadas periódicas durante todo o verão na praia de Rondinha de mãos dadas com o vice-governador Paulo Feijó;


- O Prefeito da “província com mania de metrópole” por dizer constantemente que é “todo ouvidos” às queixas da comunidade. Aliás é só ouvidos mesmo. Vai ter que carregar duas tartarugas até o final do mandato por onde quer que ele vá. Se uma delas fugir, toca pro cantinho rezar.

- O Barak Obama por dizer em rede mundial que “o Lula é o Cara”, será obrigado a passar uma temporada na casa de praia. Em Maracaibo, na VENEZUELA.

- O Hugo Chaves por ficar esculhambando na “aula” fica com o compromisso de beijar o Fidel Castro de língua em rede mundial. Os dois em alguma praia do Caribe de sunga de crochê;

- O Rei Juan Carlo, de Espanha, por passar a vez e não ter esbofeteado o Hugo Chaves, é obrigado a passar férias no Brasil, morar na favela do Alemão e aos domingos comer churrasco na laje num calor de 45º centígrados debaixo de uma lona preta com costelinha de porco fria e cerveja quente. Tudo regado a pagodinho com direito a briga no final;

- O Lula por “vomitar” que o Chaves é um “democrata”, por trazer a copa do mundo para o Brasil em 2014, as Olimpíadas em 2016 e por querer fazer a Dilma Russef sua sucessora, só para termos mais uma mulher mandando na gente, fica obrigado a mudar para os Estados Unidos e morar prá sempre em Alcatrás;

-E a Dilma Russef, por afirmar que o “apagão” é culpa do “raio”, vai ter que fazer um ensaio fotográfico sensual, num vulcão em erupsão;

- E por fim vocês, que acessam  o "Oficio dos Bandalhos" por não terem ainda espalhado esse endereço para todos os seus amigos, parceiros, inimigos, adversários, ficantes, comunidades, ratatuias outras... Tecendo os maiores elogios pela qualidade do que se escreve, pelos assuntos de interesse universal que são abordados, e sobretudo pela modéstia, fica combinado o seguinte:
“Esta página é o seu castigo”.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O OVNI do “CAMINHÃO do LEITE”


"Incrível, Dona Bernadethe!
Ele ficou parado bem na minha frente.
Como se quisesse ser fotografado!" 


Aquele grupo de senhoras reunia-se todas as terças-feiras para o chá da tarde por algumas dezenas de anos.
A posição que ocupavam na sociedade não permitiam dúvidas. As histórias relatadas pelas participes não poderiam ser colocadas no campo da desconfiança por isso deveriam estar acompanhadas de provas documentais; fotos, vídeos e testemunhos. As relações de credibilidade e verossimilhança sempre estiveram distante de qualquer tipo de fraude, invencionice ou delírio.
Aquela terça-feira seria inesquecível.
Dona Bernadethe pegou pesado!
- Meu genro fez contato com Extra-Terrestres!
Espanto, surpresa, fascínio e até uma pontinha de inveja tocou aquelas senhoras como um raio.
Ser sogra de alguém com essa deferência não é prá todo mundo.
-Bernadethe, tu pode provar isso?
Pronto. Tava estabelecida a desconfiança.
Bernadethe nunca deixara que suas façanhas pudessem levantar suspeitas. Viajara o mundo e suas histórias sempre foram comprovadas e aceitas com louvor e honras.
Presenciara na Austrália, um torneio de arremesso de anão. Trouxera na bagagem de volta ao Brasil, gravado em super-8 o depoimento do anão. Eram apenas uns gemidos do que sobrara, mas a prova estava lá.
Noutra, da Flórida trouxe um áudio de um golfinho que respondia aos comandos de “Are you happy” em cinco idiomas das chamadas "línguas mortas".
Desta feita, não foi diferente. Tirou da bolsa uma câmera fotográfica e exibiu para quem quisesse ver a foto do OVNI. Obra do genro quando do contato com o ET.
Lá estava. De forma elíptica. Brilhante.
Espanto, surpresa, admiração, fascínio e cólera.
-O que quê o genro dela tem que o meu não tem?
Algum tempo depois, descobriu-se o que genro dela tinha que os outros não tinham?
Uma tremenda cara de pau!
O sujeito fotografou o brinquedo da filha dele, um “freesbee” em movimento e falou prá inocente da Dona Bernadethe que aquilo era um OVNI. Prontamente ela contou prás amigas que se incumbiram de espalhar prá todo mundo que tinham no seu grupo uma pessoa que tem um genro, que faz contatos com ET, e que isso está provado.
Agora Bernadethe está com um dilema. Não pode deixar a filha viúva nem os netos órfãos. Se expulsar o farsante da família, vai ter que contar que foi enganada. Se disser que o OVNI, a foto do OVNI e o genro são uma fraude, vai ser expulsa do grupo.
Dona Bernadethe pediu afastamento das reuniões temporariamente alegando trabalho voluntário na Cruz Vermelha. Na Namíbia.
Na verdade vai tirar uns dias em Varginha.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

DIRIGINDO O CAMINHÃO DO LEITE


Músico?
Sim. E dos bons!
Mas há mais entre o céu e a terra do que deveria ser permitido.
Dizia com certa ponta de orgulhoso e pouca modéstia nunca ter lido um livro.
Assim sendo, certa vez num concerto didático ouvira um sussurro do filho que guardara angustiado a pergunta que faria ao pai quando tudo aquilo acabasse.
-Pai. O que é um maestro?
-Filho. Maestro é aquilo ali. Um sujeito que sem nunca ter lido um livro consegue reger uma orquestra.
Dentre as passagens que testemunhei vale o registro de uma em particular.
A inclusão desta criatura no meio teatral.
Inscrevi um ensaio num festival de esquetes teatrais onde previamente os vencedores adviriam de trabalhos realizados pelos próprios promotores do evento. Escrevi duas esquetes momentos antes da apresentação. Chamei “o caminhão do leite” para uma leitura mesmo correndo o risco de ser esculachado por fazer com lê-se míseras duas laudas de texto.
-“Tenho uma reputação a zelar”.
Prometi não falar prá ninguém a respeito. Disse para que não se preocupasse e que qualquer coisa que acontecesse dali por diante, toda a responsabilidade recairia sobre o diretor. Neste caso o suicida aqui.
Ele me fez prometer que não ia doer.
Em menos de meia hora damos por encerrado o período de ensaios.
Uma amiga que tinha uma escolinha de artes para crianças colaborou com o cenário. E diante da minha súplica por não saber desenhar, entrou também com as crianças que pintaram o cenário. E assim, lá fomos nós para a “Avant Premier”.
Tínhamos um tempo de 15 a 20 minutos por esquete para deliciar a platéia com duas jóias da dramaturgia. Ciente da absoluta falta de sustentação técnica para uma encenação, muito menos para duas, na última hora decidi abortar o segundo esquete. Evidentemente para desespero do grupo que viria a seguir, pois dos 40 minutos que nos eram de direito somente 8 minutos foram suficientes para a nossa meteórica apresentação. Ao sairmos de cena o alvoroço causou alguns estragos e o nosso cenário fora defrenestado pela coxia pelos concorrentes que só então ficaram sabendo que teriam uma antecipação de 32 minutos para sua apresentação. Muita correria, os mais variados impropérios e uma saída estratégica por trás das bambolinas laterais do palco salvaram nosso pescoço.
Fazia parte da conspiração, ao final das apresentações da noite, um debate sobre os trabalhos apresentados com os jurados. Elementos esses experimentados na prática da tortura intelectual da qual eram submetidos os participantes.
A tentativa de contextualizacão da “obra” apresentada era um dos instrumentos utilizados para nos sodomizar.
Seguros e tranqüilos como “cozinheiro de hospício” nos posicionamos para a sessão de perguntas, as quais não mudariam em nada o resultado final, mas como era uma exigência dos realizadores do festival, que assim fosse.
Assédio intelectual deveria ser considerado crime inafiançável. Dentre as questões formuladas com esmero e esforço mental imensurável, um dos inquisidores dispara contra “o caminhão do leite”:
“Fala um pouco dos meios utilizados para a composição do perfil psicológico do teu personagem e em que linguagem teatral ele foi baseado?”
Silencio sepulcral no teatro. A platéia assumira a função de torcida dos massacres romanos na arena do Coliseu. Os punhos cerrados com os polegares na horizontal.
- Prá dizer a verdade, eu não sei nem o que eu estou fazendo aqui. O meu negócio é música!
Nenhuma pergunta mais foi feita. Tem gente tentando interpretar a resposta até hoje. Um estudante de filosofia defendeu uma tese na Unisinos a respeito e foi expulso a pontapés pelos colegas dias antes da colação de grau.
Passado o efeito “O que foi isso? ”, fomos a entrega de prêmios.
Nesse item nenhuma surpresa, até que o apresentador anunciasse as indicações para Melhor Ator Coadjuvante.
Que momento sublime. Qual diretor não ficaria vaidoso por ver seu pupilo indicado para um prêmio desta magnitude. Há poucos instantes eu mesmo o teria indicado para a cadeira elétrica e agora aí está. Fiz um grande esforço para conseguir conter o impulso de voltar ao palco e fazer um discurso aproveitando aqueles 32 minutos a que tinha crédito. A expressão dos nossos contendores convenceram-me a ficar quieto, exclamando mentalmente.
-Viu? Nada substitui o talento!
Nunca tive coragem de perguntar se aquela resposta era uma estratégia para desestabilizar o corpo de jurados; o corpo e todo o resto, ou se ele realmente não fazia a menor idéia do que significava aquela pergunta sem o menor sentido.
É preciso confessar: Tenho receio do que posso ouvir!
Melhor assim.

AS AVENTURAS DO CAMINHÃO DO LEITE


Para aqueles que acreditam existir um rebanho de vacas leiteiras dentro de uma caixinha de leite, e que as diversas variedades de raças ficam divididas em gôndolas nos supermercados, separadas por preços e marcas, há que se dizer:

Havia um tempo em que leiteiro era o cara que entregava o leite na porta de nossas casas. E este vinha diretamente da vaca. O leite, não o leiteiro.

“Leiterôôô...”! Gritava ele, colocando a clientela a postos com seus vasilhames nas mãos em frente aos portões até o final da rua. O transporte era um caminhão já antigo para época, com uma carroceria de madeira, onde transportava tambos de cobre cheios do produto fresquinho.

Ao ouvir a chamada do leiteiro lá em cima, no morro, corria-se para o portão com a esperança de que naquele dia, faltaria freio no caminhão e este despencaria pela ladeira, batendo os tambos, desgovernado, derrubando tudo que estivesse pelo caminho. Coisa do tipo reação em cadeia, sabe?

Seria a glória!

Passou o tempo e as vacas foram parar dentro das tais caixinhas. Do leiteiro não se ouve mais o chamado e todo mundo precisa andar para além dos portões e indo até os supermercados a fim de adquirirem o precioso liquido a preço de ouro. Uma lástima eu nunca poder ver a nossa rua toda revirada como sempre imaginei.

Com os anos, algumas imagens vão se apagando da nossa memória, já outras teimam e seguem por mais tempo perpetuando-nos. Pois quando o caminhão do leite já andava beirando a forma de um borrão de memória apenas, vi como por mágica a personificação do mesmo. Bem assim.

-Era ele! O próprio! Humanizado. Destrambelhado!

Este “caminhão do leite” sem freio, desgovernado e fazendo estrago por onde passava, estava longe de ser um veículo antigo com carroceria de madeira. Também não tinha o leiteiro que entregava o leite, mas era ao feitio daquele caminhão de leite de outrora.

Uma criatura com um metro e noventa de altura, comportamento, trejeitos, deslocamentos e delicadeza cetácea e que lembravam um elefante com espasmos dentro de uma loja de cristais. Um rinoceronte com epilepsia.

Quem disser que conhece alguém desastrado não conhece “o caminhão do leite”.

Dentre as muitas estripulias, vão aqui algumas das suas sutilezas.

Contava com um timbre de voz privilegiada. Um tenor gravíssimo. Por conseguinte sempre as voltas com o canto coral. Inicialmente como cantor. Com o passar dos tempos as coisas iriam piorar.

Numa das tantas festividades comemorativas “pós-récitas” de canto coral, um jantar fora oferecido na casa de uma das integrantes do grupo.

Bem antes dos drinques, a filha da dona da casa, uma jovem no esplendor dos seus 16 aninhos, com a vivacidade da juventude e aquele aroma criminoso estampados nos olhinhos nem tão inocentes assim, aborda nosso personagem a fim de fazer as honras da casa e puxar assunto.

-Oi! Eu sou a Martinha, filha da Norma. Lembra de mim?

Sem tirar os olhos daqueles dois peitinhos tenros e eretos como mísseis apontados para o tarado, que com a língua buscou o fio de baba que escorregava do canto da boca pronto pra deslizar dentro do decote da ninfeta, desabafou num suspiro orgásmico:

-Nooosssaaa! Como tu cresceu...


Silêncio absoluto.
Um chamado ecoou alto, claro, inocente e desesperado:
- Mãnhêêêêêêêêê!!!!!




terça-feira, 1 de setembro de 2009

BASTIDORES



- “Quero ver colocar essa gente toda em cena”?
O espetáculo Marat-Sade de Peter Weiss estava em vias de estréia no reduzido espaço cênico do teatro do Instituto Goethe de Porto Alegre. No elenco mais de trinta atores, seis músicos, mais cenários e adereços. A magia do teatro fez com que tudo fosse acomodado adequadamente e a questão de espaço foi resolvida. A história consiste num espetáculo dentro de um espetáculo onde o Marques de Sade e o revolucionário Jean –Paul Marat, dados como loucos são confinados num hospício. O título completo da obra: “Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat , conforme representação do Grupo teatral do Hospício de Charenton, sob a direção do Senhor Marques de Sade”.
Só pelo título minha preocupação com o espaço já estaria justificada.
Tinha sob minha responsabilidade de atuação um dos personagens centrais da trama.
Duperret, um apaixonado por Charlote Corday, assassina de Marat. E também me coube o papel de um dos loucos. Essa breve ilustração se faz necessária para empreender o relato sobre o que se segue.
Sempre muito disciplinado com o meu ofício, chegava ao teatro três horas antes do espetáculo. Iniciava uma série de alongamentos e aquecimentos físicos, seguidos por exercícios de voz complementados de concentração na preparação dos personagens. Até aqui nada demais. Ritual corriqueiro e sistemático. Minha maquiagem denotava um certo tempo para ser feita. Entre uma entrada e outra, na troca de personagens é que o bicho pegava. Eu tinha cronometrados exatos 12 segundos para trocar de figurino, retocar a maquiagem e entrar em cena na deixa do anunciador:
- “Heis diante de nós o senhor Duperret”!
O “milagre” dava-se da seguinte maneira: Ao sair de cena, assim que ficava encoberto pela escuridão da coxia, a minha espera, três assistentes e uma cadeira. Uma das assistentes sacava a túnica que geralmente trancava no pescoço, quase arrancando a cabeça. Jogava-me na cadeira com braços e pernas erguidas para que as outras duas assistentes sucessivamente vestissem uma meia calça e sobre esta uma calça curta de lycra. Na parte superior uma bata com mangas franjadas e uma túnica. Enquanto eu saltava para dentro dos sapatos, a primeira assistente enterrava uma peruca sobre a touca de meia de nylon e a outra corria atrás de mim espetando grampos de cabelo no couro cabeludo para fixar a cabeleira postiça. Por fim, eu fazia o retoque da maquiagem e entrava em cena. Este ritmo frenético seria impossível sem planejamento, organização, sincronia e semanas de ensaio. Sem aquelas meninas então!?
A corrida se repetiria por mais cinco vezes durante o espetáculo que tinha duração de aproximadamente duas horas.
Passado o sufoco e percalços que rondam toda estréia, na segunda semana já éramos uma equipe em ascensão. Conseguimos baixar nosso tempo para 9 segundos, um recorde. E quero render aqui uma homenagem a uma das assistentes em especial. Não fosse por ela, uma das apresentações teria sido um desastroso fracasso. Acontece que ao chegar ao teatro fui informado que o trinco da porta do camarim estava dando defeito e esta não deveria ser fechada em hipótese alguma, sob risco de ficarmos sem acesso ao mesmo. Por precaução organizamos meus adereços, figurinos e maquiagem numa bancada improvisada fora do camarim. Tudo certo até a segunda entrada. Alguém do elenco havia extraviado seus pertences, e como é comum em teatro, pegou um lápis de sobrancelhas que estava na minha bancada, retocou sua maquiagem e o deixou fora do lugar. Tudo acontecendo dentro do prazo. Foi quando procurei o lápis e não o achei, e entendi que o princípio do fim está mais próximo do que podemos imaginar. Com tranqüilidade, segurança e otimismo, disse a minha “equipe”:
-Calma. Ainda temos 3 segundos!
Cheguei na porta do camarim e vi a luz da salvação. Ali estava o mais precioso dos elementos que compõem um espetáculo teatral. O lápis de sobrancelhas.
No meu rastro, a assistente habilidosa e ágil com dúzias de grampos sempre disposta a transformar minha cabeça num boneco de “vudoo”. Senti que tínhamos retomado o controle da situação. Ao adentrar no recinto, minha fiel escudeira esbarrou seus quase cem quilos na maldita porta que bateu e nos deixou trancados. Passei a mão numa escova de dentes que deveria estar ali por algum motivo e enfiei no buraco do trinco da fechadura pois julguei ajustar-se ao formato quadrado daquele orifício pelo qual eu teria que sair caso isso não funcionasse. Estava certo sobre uma coisa se encaixar na outra. Assim como certo era que ficaria com um pedaço do cabo da escova na mão e o resto entalado no buraco. Pronto. Nem pelo buraco saio mais!
Do lado de fora o pânico não era menor.
Ouvira a voz da salvação:
- Fiquem calmos. Vamos buscar ajuda!
Como assim: “vamos buscar ajuda”?
Terão que entrar no palco, mandarem congelar a cena, pedir ao público que volte amanhã no mesmo horário, e chamar os bombeiros.
Foi então que vi o quanto uma assistência eficiente e determinada pode evitar uma catástrofe.
Ela respirou fundo, fulminou um olhar que jamais vou esquecer, deu dois passos para trás e começou a crescer na minha direção. Arremessou suas arrobas sobre “nós”. Eu e a porta. Caímos a poucos centímetros da minha marca para entrada em cena. Assim que eu conseguisse me levantar dali, a dramaturgia daria um outro sentido a minha vida. Tínhamos arrancado a porta com marco e tudo. Agora éramos mais que apenas uma equipe. Éramos uma coisa só. A porta, eu e minha assistente de peso. Exatamente nessa ordem. O drama era psicológico. Não a peça. O meu drama.
Recompor o personagem, superar a sensação de ossos e músculos triturados e entrar quando o anunciador der a deixa:
-“Heis diante de nós o senhor Duperret”.
Era a terceira vez que ele repetia isso.



domingo, 30 de agosto de 2009

O Último Ato

Juça, o estudante de teatro que fora escorraçado do convívio familiar por ter esboçado suas pretensões artísticas, vira naquele anúncio de jornal pedindo garçom, uma oportunidade que lhe acenava na aproximação maior do seu objeto de desejo. Vivenciar momentos no convívio com artistas e intelectuais. Poderia estar se abrindo um portal naquele final de século.



“O Último Ato” era “O” bar.
E o Juça era o cara.

A vida ali, girava em torno do teatro, das artes plásticas, da música, da dança, e demais arremedos cênicos. Ver pelas mesas os atores, diretores, autores, músicos, produtores, auxiliares, técnicos, prostitutas, bêbados, intelectuais, e muitas outras deformações artísticas, todos saídos diretamente dos seus espetáculos, exibindo-se uns aos outros o que tinham de melhor, e também o de pior, para Jucelindo, aspirante a teatreiro, agora garçom, tinha nas mãos o circo dos horrores.

Alguns dos freqüentadores, nunca saíram dos seus personagens. Quando acabava a sessão na única sala de teatro da cidade, arrastavam uma performance pela vida afora numa sinfonia interminável de um concerto inacabado. E junto a ela, parte da platéia disposta a ser sodomizada intelectualmente.

O “Último Ato” só fechava quando não houvesse mais ninguém em condições de suportar a náusea, o aroma ácido de urina, maconha e vomito espalhado pelo ar daquele ambiente bizarro.

Uma ex-vedete oferecia seus préstimos pelo salão, paramentada em sua alegoria. Um misto de travesti que nasceu mulher gostaria de ser gay sem abandonar a condição de puta, resfolegava suas gengivas sedentas num falo, enquanto derramava as tetas caídas sobre flácidas dobras abdominais.

A performance dos travestis no pequeno palco concorria com as cenas libidinosas de um velho diretor que masturbava um garoto da técnica. Por uma semana apenas, desde que o bar iniciara suas atividades havia distinções entres os “toaletes” masculinos e femininos. As portas foram retiradas. A escolha era liberada. Defecar. Urinar. Sexo anal. Oral... Tudo em tempo real.

A infinita diversidades de drogas era outro atrativo indispensável.



A vizinhança já tinha tentado fechar o “Último Ato” de todas as formas legais. Nada funcionou. Autoridades policiais, judiciárias, eclesiásticas nunca fizeram nada. Do contrário, iriam soltar seus demônios onde?

As festas temáticas começaram a arregimentar um público mais alternativo. Na verdade um pretexto para aqueles que tinham algo reprimido querendo pular prá fora pelos orifícios do corpo, e sabedores de que isso poderia acontecer a qualquer instante, encontravam ali uma forma de ir se familiarizando com esse universo, digamos, mais alternativo.

Por normas da casa, Juça estava orientado a não expressar-se a respeito do que vira, ouvira ou sentira sob ameaça de ser escorraçado mais uma vez. Portanto, melhor obedecer.

Até porque ninguém socialmente equilibrado acreditaria que estas personagens pudessem existir além do imaginário de um garçom.

Havia o risco ser considerado louco. Dado como pervertido e mentiroso. Na sábia ignorância Juça silenciava uma vez mais ao baixar a cortina de ferro dando por encerrada mais uma sessão do “Ultimo Ato”.

Creiam. Esta cidade encontra-se hoje em estado de falência cultural. E ela existe. Os performáticos do “Último Ato” se organizaram. Criaram associações, fundações, ocupam cargos de confiança na administração pública, são membros de conselhos, curadores e outros tantos.

Aquela província com mania de metrópole é hoje uma velha prostituta, sempre disponível ao deleite da clientela que a usa, e a seguir, a abandona sob os lençóis puídos e suas manchas amareladas. As performances saíram dos domínios do bar e ocupam todo o grande tablado em que se transformou a cidadela. Uma farra para a “intelectuália”, ao ar livre. Para este espetáculo, não se cobram ingressos. Cobram-se impostos.

Sobre “O Último Ato”?

Juça hoje, é o novo proprietário do bar.



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

TUPI or not TUPI

Sempre fui levado a crer que aquilo que começa errado, não termina bem.
E como não fui à escola tão somente pela merenda, aceito que o título correto seria “to be or not to be”, caso tratássemos do personagem Hamlet de William Shakespeare (Willy para os íntimos), e não do Brasil-Tupiniquim.
A partir disso, o que já era ruim ficou ainda pior.
Numa edição de novembro/2007 da revista Super Interessante, dois assuntos revelaram que há em meu cérebro, mais neurônios do que a minha vã abstinência de pensamento poderia imaginar. Poucos, mais estão lá.
Um dos assuntos tem como título:
-“Diploma não dá dinheiro”.
No outro artigo, lê-se:
-“Sou nerd, mas tô na moda”.
Para a professora inglesa Alison Wolf , do primeiro artigo:
-“faculdade não é sinônimo de bons salários”-
E mais, levantada a questão de que os cursos de prestígio no Brasil duram 4 anos ou mais, e que se este investimento de tempo e dinheiro não compensa, afirma ainda que:
-As pessoas devem achar que vale a pena. É um risco, mas "talvez" o investimento se pague.
Depois deflagra:
-Bom, eu quero um diploma, mas de repente posso utilizar minhas habilidades e fazer dinheiro muito mais fácil. Ponto!
Nerd é aquele “tipinho” dado como subproduto de Albert Eistein. Fora dos padrões dados como normais. Inteligência acima da média, pouco sociável e colecionador de coisas estranhíssimas.
E eles estão na mais alta conta. O lixo enlatado do cinema e TV americana, esparramados sobre nós estão aí para o deleite de quem agüenta.
Num artifício de raciocínio, percebo a sua atualidade e baseado nos dois artigos, vamos ao que mais sabemos fazer.
A tal da “Versão Brasileira”...
Ter diploma, raciocinar, pensar e produzir, portanto ter cérebro é mau negócio. Não dá lucro.
O Nerd tupiniquim entraria em colapso de popularidade e fatalmente seria esquecido em pouquíssimo tempo.
Numa característica que só nós temos, a solução não poderia ser mais criativa para os nossos parâmetros;
Está criado o “MERD”.
É perfeito. O ambiente é propício. A capacidade de absorção deste ícone é imediata e irrestrita. O nosso “MERD” atende todas as exigências para o que se propõe.
-Quando seu filho perguntar o que deve fazer para tornar-se um “MERD”, mande ele parar de estudar imediatamente, filiar-se a alguma facção criminosa, assistir por vezes ininterruptas o DVD Tropa de Elite(na versão alternativa, claro), liderar piquetes nas universidades recrutando ignorância, tornar-se sindicalista, fundar um partido e nunca mais trabalhar.
-No caso dele insistir e achar que até mesmo um “MERD” deveria ter seu primeiro diploma, não desanime. Seu garoto pode não ter competência, mas tem ambição.
-Fique orgulhoso. Imagine as ruas do país inteiro tomadas pelo populacho exibindo todo tipo de faixas, adesivos, palavras de ordem, campanhas biliardárias e muita sacanagem.
“MERD PARA PRESIDENTE”!!!
-E quanto mais o seu presidente "MERD" fizer, maior será o índice aprovação.
-Numa "cagada" de nível LEVE, este poderá chegar em torno dos 75 pontos percentuais.
Daí prá frente ele estará reeleito, com folga!
No caso de vir a ter um “desarranjo” poderá até cumprir um terceiro mandato.
Mas cuidado, seu sonho pode se tornar realidade.
Portanto, não faça dos seus uns “MERD”, a vítima pode ser você.
E então, Ser ou não ser...
Ao que me parece, já é!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

TÁ E DAÍ, TIO?

Já virou instituição nacional. Os filhos da vizinhança, os coleguinhas de aula dos seus filhos, o malabarista pedinte do semáforo, o flanelinha limpador de pára-brisa, o cidadão guardador de carro que parece ser mais velho que você, a vizinha do prédio no elevador, e por fim, seus sobrinhos de verdade.

Para todos esses e muitos outros você passou a ser “o tio”. Não adianta contestar. É “tio” e pronto.
E “tio” com toda a cumplicidade que requer o parentesco, com direito a intimidades e tudo mais. Embora a contrariedade seja o sentimento que mais resiste à consangüinidade involuntária, você acaba cedendo e passa a ouvir o tratamento com aquele indisfarçável constrangimento. Com o tempo isto não o incomoda mais.

“O tio” começa a soar como um tratamento simpático e até bastante afetivo. Esse “tio” está dominado. Mas tem um “tio” que incomoda e muito. Esse desconcerta , desestabiliza, desarma, desmancha. Dá frio na espinha, borboletas no estômago, umedece as mãos e congela as palavras.
O “oi tio” daquela amiguinha da sua filha mais velha, que foi concebida propositadamente para te atormentar. No início não passava de uma bobagem.


Depois, um sentimento até que compreensível. O ciúme, paternal. Mas ciúme.
Notoriamente você começa a regular os meninos que estão sobrevoando a ave rara.
Aquele “oi tio” começa a soar cada vez mais lânguido, provocativo, insinuante.
É nesta etapa que, tentando manter o controle, você quer crer que tudo não passa de impressão sua, e que ela não está fazendo isso intencionalmente, e que as atitudes dela são próprias dessa geração. Tudo não passa de ingenuidade. É comum nesta fase a garota despertar para a feminilidade. Ela só está se tornando mulher.

-E você?
Só está se transformando num monstro. Que vergonha!

Cheio de remorso e culpa, apela para o bom senso, para a responsabilidade. Pensou até em se ajoelhar no milho antes de dormir, mas a sua artrite o desaconselhou. Um banho frio ajudaria se a temperatura não estivesse 2º centígrados, negativos. Restou então uma avaliação mais precisa e sensata.
Escolher entre os princípios morais ou apelar para os meios libidinosos. Na dúvida do que vem antes, a moral ou a libido, o testosterona dá uma aliviada e você acaba de lembrar que são quase oito horas da noite, e que aquilo que deveria ser o seu único objeto de desejo está completando 43 aninhos e aguarda ansiosa por uma noite especial, com jantar surpresa, telegrama fonado, flores, presentes, troca de cartões apaixonados, e tudo o mais que você esqueceu completamente.
-Você é um crápula!
Com peso na consciência, e um sobrepeso da idade, pensa na família, mulher, filhos, pai e mãe, sogra, irmãos... Canalha!!! Pensou na ninfeta de novo.
De amanhã não passa. Hoje tem o aniversário da mãe dos teus filhos. Logo cedo vai falar com a tua filha e pedir para trazer a amiguinha a fim de esclarecer o mal entendido. Está decidido.
-O que foi? Bebeu?
Se contar pra alguém que tem um fantasma te assombrando, e só porque este espectro tem peitinhos, coxinhas, bundinha, e é toda gostosinha, e só tem l7 aninhos, vão é te internar.
Quando souberem que se trata da amiguinha da tua filhinha, aí vão é te prender.
E se disser que ela é apenas teu sonho de consumo, vão é te matar.
Por enquanto, administrar a situação é prioridade. Não deixar transparecer que você age como um babaca, tarado e babão é o caminho. Manter essas mãos sob controle é o pedágio.
As providências devem ser tomadas imediatamente.
Toda a tentação deve ser evitada. A começar por não ficar sozinho com a criança em questão, seja qual for a situação. Dar início a aquela reforma na casa da praia já.
Melhor, venda a casa de praia. Transforme a piscina da casa na cidade num criatório de rãs. Temos que acabar com os banhos de sol. Pensando bem, mande arrancar a grama e plantar urtiga. Vamos evitar exposições em trajes sumários.
Melhor ainda. Vá morar num apartamento. Sem sacada, que é pra não dar idéia. Caso nada disso resolva então teremos que procurar ajuda profissional. Um psicólogo de sua inteira confiança. Ele certamente encontrará a solução.
Afinal é para isso que você paga a esse picareta uma fortuna por mês.
Só mais uma última recomendação.
Se por acaso, ele começar a ficar entusiasmado quando você estiver fazendo uma descrição mais detalhada dos atributos do anjinho, seja macho.
Vá logo dizendo que não adianta ficar animadinho, que você chegou primeiro, e que... que ele deveria estar envergonhado pois trata-se justamente da filha dele.
Agora, não procrastine a situação só por causa de um detalhezinho à toa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dadinho, o Companheiro

Difícil nos dias atuais podermos nomear amigos os quais se pode contar incondicionalmente.
Pois Dadinho era o cara. Diziam até que: “O Dadinho é parceiro de cagar no mato de mão dada”.
E era. Jamais deixaria alguém em maus lençóis. Há menor possibilidade de alguém das suas relações se deparar com alguma dificuldade, lá estava Dadinho tomando a frente.
“Companheiro meu não passa constrangimento”. E não passava.
No tratante de relacionamento com garotas era onde Dadinho fazia valer sua reputação. Sempre que precisassem de alguma abordagem mais complicada, era só chamar o “Dadinho”.
- Dadinho é seguinte; estou afim de convidar a Bernadete para irmos ao cinema, só que tem um probleminha. Ela não desgruda daquela amiga. Que tu acha que eu devo fazer?
- Compra os ingressos. A feia é minha.
Topava todas. Colou fama desde o colegial por isso. Solidariedade.
“A velha é minha! A vesga? Deixa comigo”.
Quando eu lhe disse certa vez que a amiga da minha vítima era um pouco gorda; pouco era pouco. Era muito gorda. Dadinho não se encolheu:
-Tá me estranhando? Prá uma amizade do tamanho da nossa o que são uns quilinhos a mais?
Quando a situação envolvia duas irmãs então, era especialista.
- Eu pego a irmã da miss.
Chegou um ponto em que “o” convidado era o “Dadinho”.
Ele passou a ser assediado pelas gurias de poucos atrativos. Aposta com orgulho, que até hoje, ninguém comeu tanta gente quanto ele daquela turma de 86.
Tinha cara de bom samaritano, era bem apessoado, tinha boa conversa, sem vícios. Só a mania de pegar carne de segunda.
Depois de muitos anos encontrei com o “Dadinho” em Curitiba. Marcamos um café para colocar os assuntos em dia e rememorarmos nossa trajetória juntos. Damos muitas gargalhadas, passamos do café para o chopinho e deste para o vinho num restaurante simpático e muito bem freqüentado.
Tive um rasgo de encorajamento e resolvi tirar uma curiosidade que me acompanhava desde aqueles tempos. Perguntei ao Dadinho o porque daquele fetiche com as feias, as velhas, as gordas, as tísicas, enfim...?
Outra virtude do Dadinho era não mentir à um companheiro.
- Fetiche que nada. Acontece que enquanto vocês se esforçavam para obter êxito com as bonitinhas tomando um não em 98% da investidas e se desgastando com a maioria delas, eu obtinha praticamente 100% de aproveitamento. E mais. “As minhas” acabavam acreditando que seria a última oportunidade na vida em que seriam felizes, se entregavam sem o menor pudor e ainda contavam prás amigas.
Dadinho sempre me surpreendera, positivamente. Estava diante de um estrategista.
E não se furtaria desta oportunidade.
- Tenho uma surpresa prá ti!
Dito isso, adentram a porta do restaurante duas mulheres. Uma a deusa da exuberância e elegância. Os prazeres da carne enfiado dentro do pretinho básico. A outra pertencia às forças armadas. Era o legítimo canhão.
No meio do caminho elas cochicham algo entre si. Coisas que aconteciam desde os tempos de 86. Uma delas vai em direção ao toilete. A linda e deliciosa atravessa o salão causando silêncio absoluto no ambiente. Coisas que só se vê em filmes publicitários de produtos de beleza. Vem esparramando libido em slow-motion, determinada em direção a nossa mesa. Olhando direto nos meus olhos.
- Você deve ser o Edilson? De tanto o Dadinho falar do companheirismo de vocês, não via a hora de conhecê-lo.
Esse era o Dadinho!
E ela, a Marília, aquele exemplar híbrido da espécie, a esposa dele.
Antes que o “panzer” retornasse com alguma idéia, atônito, desiludido e boquiaberto, me sentindo traído pelo “companheiro”, elogiei aquela beleza espetacular, disse que tinha sido um prazer, agradeci e me despedi levando uma lição:
Não existe essa coisa de “companheiro” para sempre.
Tudo é uma questão de interesse personalista.
O canalha comia o pão que o diabo amassou e até o próprio diabo, se preciso fosse, tão somente com intuito de construir sua plataforma de campanha.
Assim que chegou onde queria, acabou a parceria. Pensa estar acima do bem e do mal o cretino. Soube também que o farsante está envolvido em todos os tipos de escândalos, falcatruas, vigarices, propinagem e formação de quadrilha.
Portanto, cuidado. Toda a vez em que alguém vier com essa ladainha de “cumpanhêru e cumpanhêra”, acione o “puta merda” e caia fora. Eles não são de confiança.