Pois Dadinho era o cara. Diziam até que: “O Dadinho é parceiro de cagar no mato de mão dada”.
E era. Jamais deixaria alguém em maus lençóis. Há menor possibilidade de alguém das suas relações se deparar com alguma dificuldade, lá estava Dadinho tomando a frente.
“Companheiro meu não passa constrangimento”. E não passava.
No tratante de relacionamento com garotas era onde Dadinho fazia valer sua reputação. Sempre que precisassem de alguma abordagem mais complicada, era só chamar o “Dadinho”.
- Dadinho é seguinte; estou afim de convidar a Bernadete para irmos ao cinema, só que tem um probleminha. Ela não desgruda daquela amiga. Que tu acha que eu devo fazer?
- Compra os ingressos. A feia é minha.
Topava todas. Colou fama desde o colegial por isso. Solidariedade.
“A velha é minha! A vesga? Deixa comigo”.
Quando eu lhe disse certa vez que a amiga da minha vítima era um pouco gorda; pouco era pouco. Era muito gorda. Dadinho não se encolheu:
-Tá me estranhando? Prá uma amizade do tamanho da nossa o que são uns quilinhos a mais?
Quando a situação envolvia duas irmãs então, era especialista.
- Eu pego a irmã da miss.
Chegou um ponto em que “o” convidado era o “Dadinho”.
Ele passou a ser assediado pelas gurias de poucos atrativos. Aposta com orgulho, que até hoje, ninguém comeu tanta gente quanto ele daquela turma de 86.
Tinha cara de bom samaritano, era bem apessoado, tinha boa conversa, sem vícios. Só a mania de pegar carne de segunda.
Depois de muitos anos encontrei com o “Dadinho” em Curitiba. Marcamos um café para colocar os assuntos em dia e rememorarmos nossa trajetória juntos. Damos muitas gargalhadas, passamos do café para o chopinho e deste para o vinho num restaurante simpático e muito bem freqüentado.
Tive um rasgo de encorajamento e resolvi tirar uma curiosidade que me acompanhava desde aqueles tempos. Perguntei ao Dadinho o porque daquele fetiche com as feias, as velhas, as gordas, as tísicas, enfim...?
Outra virtude do Dadinho era não mentir à um companheiro.
- Fetiche que nada. Acontece que enquanto vocês se esforçavam para obter êxito com as bonitinhas tomando um não em 98% da investidas e se desgastando com a maioria delas, eu obtinha praticamente 100% de aproveitamento. E mais. “As minhas” acabavam acreditando que seria a última oportunidade na vida em que seriam felizes, se entregavam sem o menor pudor e ainda contavam prás amigas.
Dadinho sempre me surpreendera, positivamente. Estava diante de um estrategista.
E não se furtaria desta oportunidade.
- Tenho uma surpresa prá ti!
Dito isso, adentram a porta do restaurante duas mulheres. Uma a deusa da exuberância e elegância. Os prazeres da carne enfiado dentro do pretinho básico. A outra pertencia às forças armadas. Era o legítimo canhão.
No meio do caminho elas cochicham algo entre si. Coisas que aconteciam desde os tempos de 86. Uma delas vai em direção ao toilete. A linda e deliciosa atravessa o salão causando silêncio absoluto no ambiente. Coisas que só se vê em filmes publicitários de produtos de beleza. Vem esparramando libido em slow-motion, determinada em direção a nossa mesa. Olhando direto nos meus olhos.
- Você deve ser o Edilson? De tanto o Dadinho falar do companheirismo de vocês, não via a hora de conhecê-lo.
Esse era o Dadinho!
E ela, a Marília, aquele exemplar híbrido da espécie, a esposa dele.
Antes que o “panzer” retornasse com alguma idéia, atônito, desiludido e boquiaberto, me sentindo traído pelo “companheiro”, elogiei aquela beleza espetacular, disse que tinha sido um prazer, agradeci e me despedi levando uma lição:
Não existe essa coisa de “companheiro” para sempre.
Tudo é uma questão de interesse personalista.
O canalha comia o pão que o diabo amassou e até o próprio diabo, se preciso fosse, tão somente com intuito de construir sua plataforma de campanha.
Assim que chegou onde queria, acabou a parceria. Pensa estar acima do bem e do mal o cretino. Soube também que o farsante está envolvido em todos os tipos de escândalos, falcatruas, vigarices, propinagem e formação de quadrilha.
Portanto, cuidado. Toda a vez em que alguém vier com essa ladainha de “cumpanhêru e cumpanhêra”, acione o “puta merda” e caia fora. Eles não são de confiança.

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