terça-feira, 22 de setembro de 2009

O OVNI do “CAMINHÃO do LEITE”


"Incrível, Dona Bernadethe!
Ele ficou parado bem na minha frente.
Como se quisesse ser fotografado!" 


Aquele grupo de senhoras reunia-se todas as terças-feiras para o chá da tarde por algumas dezenas de anos.
A posição que ocupavam na sociedade não permitiam dúvidas. As histórias relatadas pelas participes não poderiam ser colocadas no campo da desconfiança por isso deveriam estar acompanhadas de provas documentais; fotos, vídeos e testemunhos. As relações de credibilidade e verossimilhança sempre estiveram distante de qualquer tipo de fraude, invencionice ou delírio.
Aquela terça-feira seria inesquecível.
Dona Bernadethe pegou pesado!
- Meu genro fez contato com Extra-Terrestres!
Espanto, surpresa, fascínio e até uma pontinha de inveja tocou aquelas senhoras como um raio.
Ser sogra de alguém com essa deferência não é prá todo mundo.
-Bernadethe, tu pode provar isso?
Pronto. Tava estabelecida a desconfiança.
Bernadethe nunca deixara que suas façanhas pudessem levantar suspeitas. Viajara o mundo e suas histórias sempre foram comprovadas e aceitas com louvor e honras.
Presenciara na Austrália, um torneio de arremesso de anão. Trouxera na bagagem de volta ao Brasil, gravado em super-8 o depoimento do anão. Eram apenas uns gemidos do que sobrara, mas a prova estava lá.
Noutra, da Flórida trouxe um áudio de um golfinho que respondia aos comandos de “Are you happy” em cinco idiomas das chamadas "línguas mortas".
Desta feita, não foi diferente. Tirou da bolsa uma câmera fotográfica e exibiu para quem quisesse ver a foto do OVNI. Obra do genro quando do contato com o ET.
Lá estava. De forma elíptica. Brilhante.
Espanto, surpresa, admiração, fascínio e cólera.
-O que quê o genro dela tem que o meu não tem?
Algum tempo depois, descobriu-se o que genro dela tinha que os outros não tinham?
Uma tremenda cara de pau!
O sujeito fotografou o brinquedo da filha dele, um “freesbee” em movimento e falou prá inocente da Dona Bernadethe que aquilo era um OVNI. Prontamente ela contou prás amigas que se incumbiram de espalhar prá todo mundo que tinham no seu grupo uma pessoa que tem um genro, que faz contatos com ET, e que isso está provado.
Agora Bernadethe está com um dilema. Não pode deixar a filha viúva nem os netos órfãos. Se expulsar o farsante da família, vai ter que contar que foi enganada. Se disser que o OVNI, a foto do OVNI e o genro são uma fraude, vai ser expulsa do grupo.
Dona Bernadethe pediu afastamento das reuniões temporariamente alegando trabalho voluntário na Cruz Vermelha. Na Namíbia.
Na verdade vai tirar uns dias em Varginha.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

DIRIGINDO O CAMINHÃO DO LEITE


Músico?
Sim. E dos bons!
Mas há mais entre o céu e a terra do que deveria ser permitido.
Dizia com certa ponta de orgulhoso e pouca modéstia nunca ter lido um livro.
Assim sendo, certa vez num concerto didático ouvira um sussurro do filho que guardara angustiado a pergunta que faria ao pai quando tudo aquilo acabasse.
-Pai. O que é um maestro?
-Filho. Maestro é aquilo ali. Um sujeito que sem nunca ter lido um livro consegue reger uma orquestra.
Dentre as passagens que testemunhei vale o registro de uma em particular.
A inclusão desta criatura no meio teatral.
Inscrevi um ensaio num festival de esquetes teatrais onde previamente os vencedores adviriam de trabalhos realizados pelos próprios promotores do evento. Escrevi duas esquetes momentos antes da apresentação. Chamei “o caminhão do leite” para uma leitura mesmo correndo o risco de ser esculachado por fazer com lê-se míseras duas laudas de texto.
-“Tenho uma reputação a zelar”.
Prometi não falar prá ninguém a respeito. Disse para que não se preocupasse e que qualquer coisa que acontecesse dali por diante, toda a responsabilidade recairia sobre o diretor. Neste caso o suicida aqui.
Ele me fez prometer que não ia doer.
Em menos de meia hora damos por encerrado o período de ensaios.
Uma amiga que tinha uma escolinha de artes para crianças colaborou com o cenário. E diante da minha súplica por não saber desenhar, entrou também com as crianças que pintaram o cenário. E assim, lá fomos nós para a “Avant Premier”.
Tínhamos um tempo de 15 a 20 minutos por esquete para deliciar a platéia com duas jóias da dramaturgia. Ciente da absoluta falta de sustentação técnica para uma encenação, muito menos para duas, na última hora decidi abortar o segundo esquete. Evidentemente para desespero do grupo que viria a seguir, pois dos 40 minutos que nos eram de direito somente 8 minutos foram suficientes para a nossa meteórica apresentação. Ao sairmos de cena o alvoroço causou alguns estragos e o nosso cenário fora defrenestado pela coxia pelos concorrentes que só então ficaram sabendo que teriam uma antecipação de 32 minutos para sua apresentação. Muita correria, os mais variados impropérios e uma saída estratégica por trás das bambolinas laterais do palco salvaram nosso pescoço.
Fazia parte da conspiração, ao final das apresentações da noite, um debate sobre os trabalhos apresentados com os jurados. Elementos esses experimentados na prática da tortura intelectual da qual eram submetidos os participantes.
A tentativa de contextualizacão da “obra” apresentada era um dos instrumentos utilizados para nos sodomizar.
Seguros e tranqüilos como “cozinheiro de hospício” nos posicionamos para a sessão de perguntas, as quais não mudariam em nada o resultado final, mas como era uma exigência dos realizadores do festival, que assim fosse.
Assédio intelectual deveria ser considerado crime inafiançável. Dentre as questões formuladas com esmero e esforço mental imensurável, um dos inquisidores dispara contra “o caminhão do leite”:
“Fala um pouco dos meios utilizados para a composição do perfil psicológico do teu personagem e em que linguagem teatral ele foi baseado?”
Silencio sepulcral no teatro. A platéia assumira a função de torcida dos massacres romanos na arena do Coliseu. Os punhos cerrados com os polegares na horizontal.
- Prá dizer a verdade, eu não sei nem o que eu estou fazendo aqui. O meu negócio é música!
Nenhuma pergunta mais foi feita. Tem gente tentando interpretar a resposta até hoje. Um estudante de filosofia defendeu uma tese na Unisinos a respeito e foi expulso a pontapés pelos colegas dias antes da colação de grau.
Passado o efeito “O que foi isso? ”, fomos a entrega de prêmios.
Nesse item nenhuma surpresa, até que o apresentador anunciasse as indicações para Melhor Ator Coadjuvante.
Que momento sublime. Qual diretor não ficaria vaidoso por ver seu pupilo indicado para um prêmio desta magnitude. Há poucos instantes eu mesmo o teria indicado para a cadeira elétrica e agora aí está. Fiz um grande esforço para conseguir conter o impulso de voltar ao palco e fazer um discurso aproveitando aqueles 32 minutos a que tinha crédito. A expressão dos nossos contendores convenceram-me a ficar quieto, exclamando mentalmente.
-Viu? Nada substitui o talento!
Nunca tive coragem de perguntar se aquela resposta era uma estratégia para desestabilizar o corpo de jurados; o corpo e todo o resto, ou se ele realmente não fazia a menor idéia do que significava aquela pergunta sem o menor sentido.
É preciso confessar: Tenho receio do que posso ouvir!
Melhor assim.

AS AVENTURAS DO CAMINHÃO DO LEITE


Para aqueles que acreditam existir um rebanho de vacas leiteiras dentro de uma caixinha de leite, e que as diversas variedades de raças ficam divididas em gôndolas nos supermercados, separadas por preços e marcas, há que se dizer:

Havia um tempo em que leiteiro era o cara que entregava o leite na porta de nossas casas. E este vinha diretamente da vaca. O leite, não o leiteiro.

“Leiterôôô...”! Gritava ele, colocando a clientela a postos com seus vasilhames nas mãos em frente aos portões até o final da rua. O transporte era um caminhão já antigo para época, com uma carroceria de madeira, onde transportava tambos de cobre cheios do produto fresquinho.

Ao ouvir a chamada do leiteiro lá em cima, no morro, corria-se para o portão com a esperança de que naquele dia, faltaria freio no caminhão e este despencaria pela ladeira, batendo os tambos, desgovernado, derrubando tudo que estivesse pelo caminho. Coisa do tipo reação em cadeia, sabe?

Seria a glória!

Passou o tempo e as vacas foram parar dentro das tais caixinhas. Do leiteiro não se ouve mais o chamado e todo mundo precisa andar para além dos portões e indo até os supermercados a fim de adquirirem o precioso liquido a preço de ouro. Uma lástima eu nunca poder ver a nossa rua toda revirada como sempre imaginei.

Com os anos, algumas imagens vão se apagando da nossa memória, já outras teimam e seguem por mais tempo perpetuando-nos. Pois quando o caminhão do leite já andava beirando a forma de um borrão de memória apenas, vi como por mágica a personificação do mesmo. Bem assim.

-Era ele! O próprio! Humanizado. Destrambelhado!

Este “caminhão do leite” sem freio, desgovernado e fazendo estrago por onde passava, estava longe de ser um veículo antigo com carroceria de madeira. Também não tinha o leiteiro que entregava o leite, mas era ao feitio daquele caminhão de leite de outrora.

Uma criatura com um metro e noventa de altura, comportamento, trejeitos, deslocamentos e delicadeza cetácea e que lembravam um elefante com espasmos dentro de uma loja de cristais. Um rinoceronte com epilepsia.

Quem disser que conhece alguém desastrado não conhece “o caminhão do leite”.

Dentre as muitas estripulias, vão aqui algumas das suas sutilezas.

Contava com um timbre de voz privilegiada. Um tenor gravíssimo. Por conseguinte sempre as voltas com o canto coral. Inicialmente como cantor. Com o passar dos tempos as coisas iriam piorar.

Numa das tantas festividades comemorativas “pós-récitas” de canto coral, um jantar fora oferecido na casa de uma das integrantes do grupo.

Bem antes dos drinques, a filha da dona da casa, uma jovem no esplendor dos seus 16 aninhos, com a vivacidade da juventude e aquele aroma criminoso estampados nos olhinhos nem tão inocentes assim, aborda nosso personagem a fim de fazer as honras da casa e puxar assunto.

-Oi! Eu sou a Martinha, filha da Norma. Lembra de mim?

Sem tirar os olhos daqueles dois peitinhos tenros e eretos como mísseis apontados para o tarado, que com a língua buscou o fio de baba que escorregava do canto da boca pronto pra deslizar dentro do decote da ninfeta, desabafou num suspiro orgásmico:

-Nooosssaaa! Como tu cresceu...


Silêncio absoluto.
Um chamado ecoou alto, claro, inocente e desesperado:
- Mãnhêêêêêêêêê!!!!!




terça-feira, 1 de setembro de 2009

BASTIDORES



- “Quero ver colocar essa gente toda em cena”?
O espetáculo Marat-Sade de Peter Weiss estava em vias de estréia no reduzido espaço cênico do teatro do Instituto Goethe de Porto Alegre. No elenco mais de trinta atores, seis músicos, mais cenários e adereços. A magia do teatro fez com que tudo fosse acomodado adequadamente e a questão de espaço foi resolvida. A história consiste num espetáculo dentro de um espetáculo onde o Marques de Sade e o revolucionário Jean –Paul Marat, dados como loucos são confinados num hospício. O título completo da obra: “Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat , conforme representação do Grupo teatral do Hospício de Charenton, sob a direção do Senhor Marques de Sade”.
Só pelo título minha preocupação com o espaço já estaria justificada.
Tinha sob minha responsabilidade de atuação um dos personagens centrais da trama.
Duperret, um apaixonado por Charlote Corday, assassina de Marat. E também me coube o papel de um dos loucos. Essa breve ilustração se faz necessária para empreender o relato sobre o que se segue.
Sempre muito disciplinado com o meu ofício, chegava ao teatro três horas antes do espetáculo. Iniciava uma série de alongamentos e aquecimentos físicos, seguidos por exercícios de voz complementados de concentração na preparação dos personagens. Até aqui nada demais. Ritual corriqueiro e sistemático. Minha maquiagem denotava um certo tempo para ser feita. Entre uma entrada e outra, na troca de personagens é que o bicho pegava. Eu tinha cronometrados exatos 12 segundos para trocar de figurino, retocar a maquiagem e entrar em cena na deixa do anunciador:
- “Heis diante de nós o senhor Duperret”!
O “milagre” dava-se da seguinte maneira: Ao sair de cena, assim que ficava encoberto pela escuridão da coxia, a minha espera, três assistentes e uma cadeira. Uma das assistentes sacava a túnica que geralmente trancava no pescoço, quase arrancando a cabeça. Jogava-me na cadeira com braços e pernas erguidas para que as outras duas assistentes sucessivamente vestissem uma meia calça e sobre esta uma calça curta de lycra. Na parte superior uma bata com mangas franjadas e uma túnica. Enquanto eu saltava para dentro dos sapatos, a primeira assistente enterrava uma peruca sobre a touca de meia de nylon e a outra corria atrás de mim espetando grampos de cabelo no couro cabeludo para fixar a cabeleira postiça. Por fim, eu fazia o retoque da maquiagem e entrava em cena. Este ritmo frenético seria impossível sem planejamento, organização, sincronia e semanas de ensaio. Sem aquelas meninas então!?
A corrida se repetiria por mais cinco vezes durante o espetáculo que tinha duração de aproximadamente duas horas.
Passado o sufoco e percalços que rondam toda estréia, na segunda semana já éramos uma equipe em ascensão. Conseguimos baixar nosso tempo para 9 segundos, um recorde. E quero render aqui uma homenagem a uma das assistentes em especial. Não fosse por ela, uma das apresentações teria sido um desastroso fracasso. Acontece que ao chegar ao teatro fui informado que o trinco da porta do camarim estava dando defeito e esta não deveria ser fechada em hipótese alguma, sob risco de ficarmos sem acesso ao mesmo. Por precaução organizamos meus adereços, figurinos e maquiagem numa bancada improvisada fora do camarim. Tudo certo até a segunda entrada. Alguém do elenco havia extraviado seus pertences, e como é comum em teatro, pegou um lápis de sobrancelhas que estava na minha bancada, retocou sua maquiagem e o deixou fora do lugar. Tudo acontecendo dentro do prazo. Foi quando procurei o lápis e não o achei, e entendi que o princípio do fim está mais próximo do que podemos imaginar. Com tranqüilidade, segurança e otimismo, disse a minha “equipe”:
-Calma. Ainda temos 3 segundos!
Cheguei na porta do camarim e vi a luz da salvação. Ali estava o mais precioso dos elementos que compõem um espetáculo teatral. O lápis de sobrancelhas.
No meu rastro, a assistente habilidosa e ágil com dúzias de grampos sempre disposta a transformar minha cabeça num boneco de “vudoo”. Senti que tínhamos retomado o controle da situação. Ao adentrar no recinto, minha fiel escudeira esbarrou seus quase cem quilos na maldita porta que bateu e nos deixou trancados. Passei a mão numa escova de dentes que deveria estar ali por algum motivo e enfiei no buraco do trinco da fechadura pois julguei ajustar-se ao formato quadrado daquele orifício pelo qual eu teria que sair caso isso não funcionasse. Estava certo sobre uma coisa se encaixar na outra. Assim como certo era que ficaria com um pedaço do cabo da escova na mão e o resto entalado no buraco. Pronto. Nem pelo buraco saio mais!
Do lado de fora o pânico não era menor.
Ouvira a voz da salvação:
- Fiquem calmos. Vamos buscar ajuda!
Como assim: “vamos buscar ajuda”?
Terão que entrar no palco, mandarem congelar a cena, pedir ao público que volte amanhã no mesmo horário, e chamar os bombeiros.
Foi então que vi o quanto uma assistência eficiente e determinada pode evitar uma catástrofe.
Ela respirou fundo, fulminou um olhar que jamais vou esquecer, deu dois passos para trás e começou a crescer na minha direção. Arremessou suas arrobas sobre “nós”. Eu e a porta. Caímos a poucos centímetros da minha marca para entrada em cena. Assim que eu conseguisse me levantar dali, a dramaturgia daria um outro sentido a minha vida. Tínhamos arrancado a porta com marco e tudo. Agora éramos mais que apenas uma equipe. Éramos uma coisa só. A porta, eu e minha assistente de peso. Exatamente nessa ordem. O drama era psicológico. Não a peça. O meu drama.
Recompor o personagem, superar a sensação de ossos e músculos triturados e entrar quando o anunciador der a deixa:
-“Heis diante de nós o senhor Duperret”.
Era a terceira vez que ele repetia isso.