terça-feira, 1 de setembro de 2009

BASTIDORES



- “Quero ver colocar essa gente toda em cena”?
O espetáculo Marat-Sade de Peter Weiss estava em vias de estréia no reduzido espaço cênico do teatro do Instituto Goethe de Porto Alegre. No elenco mais de trinta atores, seis músicos, mais cenários e adereços. A magia do teatro fez com que tudo fosse acomodado adequadamente e a questão de espaço foi resolvida. A história consiste num espetáculo dentro de um espetáculo onde o Marques de Sade e o revolucionário Jean –Paul Marat, dados como loucos são confinados num hospício. O título completo da obra: “Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat , conforme representação do Grupo teatral do Hospício de Charenton, sob a direção do Senhor Marques de Sade”.
Só pelo título minha preocupação com o espaço já estaria justificada.
Tinha sob minha responsabilidade de atuação um dos personagens centrais da trama.
Duperret, um apaixonado por Charlote Corday, assassina de Marat. E também me coube o papel de um dos loucos. Essa breve ilustração se faz necessária para empreender o relato sobre o que se segue.
Sempre muito disciplinado com o meu ofício, chegava ao teatro três horas antes do espetáculo. Iniciava uma série de alongamentos e aquecimentos físicos, seguidos por exercícios de voz complementados de concentração na preparação dos personagens. Até aqui nada demais. Ritual corriqueiro e sistemático. Minha maquiagem denotava um certo tempo para ser feita. Entre uma entrada e outra, na troca de personagens é que o bicho pegava. Eu tinha cronometrados exatos 12 segundos para trocar de figurino, retocar a maquiagem e entrar em cena na deixa do anunciador:
- “Heis diante de nós o senhor Duperret”!
O “milagre” dava-se da seguinte maneira: Ao sair de cena, assim que ficava encoberto pela escuridão da coxia, a minha espera, três assistentes e uma cadeira. Uma das assistentes sacava a túnica que geralmente trancava no pescoço, quase arrancando a cabeça. Jogava-me na cadeira com braços e pernas erguidas para que as outras duas assistentes sucessivamente vestissem uma meia calça e sobre esta uma calça curta de lycra. Na parte superior uma bata com mangas franjadas e uma túnica. Enquanto eu saltava para dentro dos sapatos, a primeira assistente enterrava uma peruca sobre a touca de meia de nylon e a outra corria atrás de mim espetando grampos de cabelo no couro cabeludo para fixar a cabeleira postiça. Por fim, eu fazia o retoque da maquiagem e entrava em cena. Este ritmo frenético seria impossível sem planejamento, organização, sincronia e semanas de ensaio. Sem aquelas meninas então!?
A corrida se repetiria por mais cinco vezes durante o espetáculo que tinha duração de aproximadamente duas horas.
Passado o sufoco e percalços que rondam toda estréia, na segunda semana já éramos uma equipe em ascensão. Conseguimos baixar nosso tempo para 9 segundos, um recorde. E quero render aqui uma homenagem a uma das assistentes em especial. Não fosse por ela, uma das apresentações teria sido um desastroso fracasso. Acontece que ao chegar ao teatro fui informado que o trinco da porta do camarim estava dando defeito e esta não deveria ser fechada em hipótese alguma, sob risco de ficarmos sem acesso ao mesmo. Por precaução organizamos meus adereços, figurinos e maquiagem numa bancada improvisada fora do camarim. Tudo certo até a segunda entrada. Alguém do elenco havia extraviado seus pertences, e como é comum em teatro, pegou um lápis de sobrancelhas que estava na minha bancada, retocou sua maquiagem e o deixou fora do lugar. Tudo acontecendo dentro do prazo. Foi quando procurei o lápis e não o achei, e entendi que o princípio do fim está mais próximo do que podemos imaginar. Com tranqüilidade, segurança e otimismo, disse a minha “equipe”:
-Calma. Ainda temos 3 segundos!
Cheguei na porta do camarim e vi a luz da salvação. Ali estava o mais precioso dos elementos que compõem um espetáculo teatral. O lápis de sobrancelhas.
No meu rastro, a assistente habilidosa e ágil com dúzias de grampos sempre disposta a transformar minha cabeça num boneco de “vudoo”. Senti que tínhamos retomado o controle da situação. Ao adentrar no recinto, minha fiel escudeira esbarrou seus quase cem quilos na maldita porta que bateu e nos deixou trancados. Passei a mão numa escova de dentes que deveria estar ali por algum motivo e enfiei no buraco do trinco da fechadura pois julguei ajustar-se ao formato quadrado daquele orifício pelo qual eu teria que sair caso isso não funcionasse. Estava certo sobre uma coisa se encaixar na outra. Assim como certo era que ficaria com um pedaço do cabo da escova na mão e o resto entalado no buraco. Pronto. Nem pelo buraco saio mais!
Do lado de fora o pânico não era menor.
Ouvira a voz da salvação:
- Fiquem calmos. Vamos buscar ajuda!
Como assim: “vamos buscar ajuda”?
Terão que entrar no palco, mandarem congelar a cena, pedir ao público que volte amanhã no mesmo horário, e chamar os bombeiros.
Foi então que vi o quanto uma assistência eficiente e determinada pode evitar uma catástrofe.
Ela respirou fundo, fulminou um olhar que jamais vou esquecer, deu dois passos para trás e começou a crescer na minha direção. Arremessou suas arrobas sobre “nós”. Eu e a porta. Caímos a poucos centímetros da minha marca para entrada em cena. Assim que eu conseguisse me levantar dali, a dramaturgia daria um outro sentido a minha vida. Tínhamos arrancado a porta com marco e tudo. Agora éramos mais que apenas uma equipe. Éramos uma coisa só. A porta, eu e minha assistente de peso. Exatamente nessa ordem. O drama era psicológico. Não a peça. O meu drama.
Recompor o personagem, superar a sensação de ossos e músculos triturados e entrar quando o anunciador der a deixa:
-“Heis diante de nós o senhor Duperret”.
Era a terceira vez que ele repetia isso.



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