Músico?
Sim. E dos bons!Mas há mais entre o céu e a terra do que deveria ser permitido.
Dizia com certa ponta de orgulhoso e pouca modéstia nunca ter lido um livro.
Assim sendo, certa vez num concerto didático ouvira um sussurro do filho que guardara angustiado a pergunta que faria ao pai quando tudo aquilo acabasse.
-Pai. O que é um maestro?
-Filho. Maestro é aquilo ali. Um sujeito que sem nunca ter lido um livro consegue reger uma orquestra.
Dentre as passagens que testemunhei vale o registro de uma em particular.
A inclusão desta criatura no meio teatral.
Inscrevi um ensaio num festival de esquetes teatrais onde previamente os vencedores adviriam de trabalhos realizados pelos próprios promotores do evento. Escrevi duas esquetes momentos antes da apresentação. Chamei “o caminhão do leite” para uma leitura mesmo correndo o risco de ser esculachado por fazer com lê-se míseras duas laudas de texto.
-“Tenho uma reputação a zelar”.
Prometi não falar prá ninguém a respeito. Disse para que não se preocupasse e que qualquer coisa que acontecesse dali por diante, toda a responsabilidade recairia sobre o diretor. Neste caso o suicida aqui.
Ele me fez prometer que não ia doer.
Em menos de meia hora damos por encerrado o período de ensaios.
Uma amiga que tinha uma escolinha de artes para crianças colaborou com o cenário. E diante da minha súplica por não saber desenhar, entrou também com as crianças que pintaram o cenário. E assim, lá fomos nós para a “Avant Premier”.
Tínhamos um tempo de 15 a 20 minutos por esquete para deliciar a platéia com duas jóias da dramaturgia. Ciente da absoluta falta de sustentação técnica para uma encenação, muito menos para duas, na última hora decidi abortar o segundo esquete. Evidentemente para desespero do grupo que viria a seguir, pois dos 40 minutos que nos eram de direito somente 8 minutos foram suficientes para a nossa meteórica apresentação. Ao sairmos de cena o alvoroço causou alguns estragos e o nosso cenário fora defrenestado pela coxia pelos concorrentes que só então ficaram sabendo que teriam uma antecipação de 32 minutos para sua apresentação. Muita correria, os mais variados impropérios e uma saída estratégica por trás das bambolinas laterais do palco salvaram nosso pescoço.
Fazia parte da conspiração, ao final das apresentações da noite, um debate sobre os trabalhos apresentados com os jurados. Elementos esses experimentados na prática da tortura intelectual da qual eram submetidos os participantes.
A tentativa de contextualizacão da “obra” apresentada era um dos instrumentos utilizados para nos sodomizar.
Seguros e tranqüilos como “cozinheiro de hospício” nos posicionamos para a sessão de perguntas, as quais não mudariam em nada o resultado final, mas como era uma exigência dos realizadores do festival, que assim fosse.
Assédio intelectual deveria ser considerado crime inafiançável. Dentre as questões formuladas com esmero e esforço mental imensurável, um dos inquisidores dispara contra “o caminhão do leite”:
“Fala um pouco dos meios utilizados para a composição do perfil psicológico do teu personagem e em que linguagem teatral ele foi baseado?”
Silencio sepulcral no teatro. A platéia assumira a função de torcida dos massacres romanos na arena do Coliseu. Os punhos cerrados com os polegares na horizontal.
- Prá dizer a verdade, eu não sei nem o que eu estou fazendo aqui. O meu negócio é música!
Nenhuma pergunta mais foi feita. Tem gente tentando interpretar a resposta até hoje. Um estudante de filosofia defendeu uma tese na Unisinos a respeito e foi expulso a pontapés pelos colegas dias antes da colação de grau.
Passado o efeito “O que foi isso? ”, fomos a entrega de prêmios.
Nesse item nenhuma surpresa, até que o apresentador anunciasse as indicações para Melhor Ator Coadjuvante.
Que momento sublime. Qual diretor não ficaria vaidoso por ver seu pupilo indicado para um prêmio desta magnitude. Há poucos instantes eu mesmo o teria indicado para a cadeira elétrica e agora aí está. Fiz um grande esforço para conseguir conter o impulso de voltar ao palco e fazer um discurso aproveitando aqueles 32 minutos a que tinha crédito. A expressão dos nossos contendores convenceram-me a ficar quieto, exclamando mentalmente.
-Viu? Nada substitui o talento!
Nunca tive coragem de perguntar se aquela resposta era uma estratégia para desestabilizar o corpo de jurados; o corpo e todo o resto, ou se ele realmente não fazia a menor idéia do que significava aquela pergunta sem o menor sentido.
É preciso confessar: Tenho receio do que posso ouvir!
Melhor assim.

Nenhum comentário:
Postar um comentário