domingo, 30 de agosto de 2009

O Último Ato

Juça, o estudante de teatro que fora escorraçado do convívio familiar por ter esboçado suas pretensões artísticas, vira naquele anúncio de jornal pedindo garçom, uma oportunidade que lhe acenava na aproximação maior do seu objeto de desejo. Vivenciar momentos no convívio com artistas e intelectuais. Poderia estar se abrindo um portal naquele final de século.



“O Último Ato” era “O” bar.
E o Juça era o cara.

A vida ali, girava em torno do teatro, das artes plásticas, da música, da dança, e demais arremedos cênicos. Ver pelas mesas os atores, diretores, autores, músicos, produtores, auxiliares, técnicos, prostitutas, bêbados, intelectuais, e muitas outras deformações artísticas, todos saídos diretamente dos seus espetáculos, exibindo-se uns aos outros o que tinham de melhor, e também o de pior, para Jucelindo, aspirante a teatreiro, agora garçom, tinha nas mãos o circo dos horrores.

Alguns dos freqüentadores, nunca saíram dos seus personagens. Quando acabava a sessão na única sala de teatro da cidade, arrastavam uma performance pela vida afora numa sinfonia interminável de um concerto inacabado. E junto a ela, parte da platéia disposta a ser sodomizada intelectualmente.

O “Último Ato” só fechava quando não houvesse mais ninguém em condições de suportar a náusea, o aroma ácido de urina, maconha e vomito espalhado pelo ar daquele ambiente bizarro.

Uma ex-vedete oferecia seus préstimos pelo salão, paramentada em sua alegoria. Um misto de travesti que nasceu mulher gostaria de ser gay sem abandonar a condição de puta, resfolegava suas gengivas sedentas num falo, enquanto derramava as tetas caídas sobre flácidas dobras abdominais.

A performance dos travestis no pequeno palco concorria com as cenas libidinosas de um velho diretor que masturbava um garoto da técnica. Por uma semana apenas, desde que o bar iniciara suas atividades havia distinções entres os “toaletes” masculinos e femininos. As portas foram retiradas. A escolha era liberada. Defecar. Urinar. Sexo anal. Oral... Tudo em tempo real.

A infinita diversidades de drogas era outro atrativo indispensável.



A vizinhança já tinha tentado fechar o “Último Ato” de todas as formas legais. Nada funcionou. Autoridades policiais, judiciárias, eclesiásticas nunca fizeram nada. Do contrário, iriam soltar seus demônios onde?

As festas temáticas começaram a arregimentar um público mais alternativo. Na verdade um pretexto para aqueles que tinham algo reprimido querendo pular prá fora pelos orifícios do corpo, e sabedores de que isso poderia acontecer a qualquer instante, encontravam ali uma forma de ir se familiarizando com esse universo, digamos, mais alternativo.

Por normas da casa, Juça estava orientado a não expressar-se a respeito do que vira, ouvira ou sentira sob ameaça de ser escorraçado mais uma vez. Portanto, melhor obedecer.

Até porque ninguém socialmente equilibrado acreditaria que estas personagens pudessem existir além do imaginário de um garçom.

Havia o risco ser considerado louco. Dado como pervertido e mentiroso. Na sábia ignorância Juça silenciava uma vez mais ao baixar a cortina de ferro dando por encerrada mais uma sessão do “Ultimo Ato”.

Creiam. Esta cidade encontra-se hoje em estado de falência cultural. E ela existe. Os performáticos do “Último Ato” se organizaram. Criaram associações, fundações, ocupam cargos de confiança na administração pública, são membros de conselhos, curadores e outros tantos.

Aquela província com mania de metrópole é hoje uma velha prostituta, sempre disponível ao deleite da clientela que a usa, e a seguir, a abandona sob os lençóis puídos e suas manchas amareladas. As performances saíram dos domínios do bar e ocupam todo o grande tablado em que se transformou a cidadela. Uma farra para a “intelectuália”, ao ar livre. Para este espetáculo, não se cobram ingressos. Cobram-se impostos.

Sobre “O Último Ato”?

Juça hoje, é o novo proprietário do bar.



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

TUPI or not TUPI

Sempre fui levado a crer que aquilo que começa errado, não termina bem.
E como não fui à escola tão somente pela merenda, aceito que o título correto seria “to be or not to be”, caso tratássemos do personagem Hamlet de William Shakespeare (Willy para os íntimos), e não do Brasil-Tupiniquim.
A partir disso, o que já era ruim ficou ainda pior.
Numa edição de novembro/2007 da revista Super Interessante, dois assuntos revelaram que há em meu cérebro, mais neurônios do que a minha vã abstinência de pensamento poderia imaginar. Poucos, mais estão lá.
Um dos assuntos tem como título:
-“Diploma não dá dinheiro”.
No outro artigo, lê-se:
-“Sou nerd, mas tô na moda”.
Para a professora inglesa Alison Wolf , do primeiro artigo:
-“faculdade não é sinônimo de bons salários”-
E mais, levantada a questão de que os cursos de prestígio no Brasil duram 4 anos ou mais, e que se este investimento de tempo e dinheiro não compensa, afirma ainda que:
-As pessoas devem achar que vale a pena. É um risco, mas "talvez" o investimento se pague.
Depois deflagra:
-Bom, eu quero um diploma, mas de repente posso utilizar minhas habilidades e fazer dinheiro muito mais fácil. Ponto!
Nerd é aquele “tipinho” dado como subproduto de Albert Eistein. Fora dos padrões dados como normais. Inteligência acima da média, pouco sociável e colecionador de coisas estranhíssimas.
E eles estão na mais alta conta. O lixo enlatado do cinema e TV americana, esparramados sobre nós estão aí para o deleite de quem agüenta.
Num artifício de raciocínio, percebo a sua atualidade e baseado nos dois artigos, vamos ao que mais sabemos fazer.
A tal da “Versão Brasileira”...
Ter diploma, raciocinar, pensar e produzir, portanto ter cérebro é mau negócio. Não dá lucro.
O Nerd tupiniquim entraria em colapso de popularidade e fatalmente seria esquecido em pouquíssimo tempo.
Numa característica que só nós temos, a solução não poderia ser mais criativa para os nossos parâmetros;
Está criado o “MERD”.
É perfeito. O ambiente é propício. A capacidade de absorção deste ícone é imediata e irrestrita. O nosso “MERD” atende todas as exigências para o que se propõe.
-Quando seu filho perguntar o que deve fazer para tornar-se um “MERD”, mande ele parar de estudar imediatamente, filiar-se a alguma facção criminosa, assistir por vezes ininterruptas o DVD Tropa de Elite(na versão alternativa, claro), liderar piquetes nas universidades recrutando ignorância, tornar-se sindicalista, fundar um partido e nunca mais trabalhar.
-No caso dele insistir e achar que até mesmo um “MERD” deveria ter seu primeiro diploma, não desanime. Seu garoto pode não ter competência, mas tem ambição.
-Fique orgulhoso. Imagine as ruas do país inteiro tomadas pelo populacho exibindo todo tipo de faixas, adesivos, palavras de ordem, campanhas biliardárias e muita sacanagem.
“MERD PARA PRESIDENTE”!!!
-E quanto mais o seu presidente "MERD" fizer, maior será o índice aprovação.
-Numa "cagada" de nível LEVE, este poderá chegar em torno dos 75 pontos percentuais.
Daí prá frente ele estará reeleito, com folga!
No caso de vir a ter um “desarranjo” poderá até cumprir um terceiro mandato.
Mas cuidado, seu sonho pode se tornar realidade.
Portanto, não faça dos seus uns “MERD”, a vítima pode ser você.
E então, Ser ou não ser...
Ao que me parece, já é!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

TÁ E DAÍ, TIO?

Já virou instituição nacional. Os filhos da vizinhança, os coleguinhas de aula dos seus filhos, o malabarista pedinte do semáforo, o flanelinha limpador de pára-brisa, o cidadão guardador de carro que parece ser mais velho que você, a vizinha do prédio no elevador, e por fim, seus sobrinhos de verdade.

Para todos esses e muitos outros você passou a ser “o tio”. Não adianta contestar. É “tio” e pronto.
E “tio” com toda a cumplicidade que requer o parentesco, com direito a intimidades e tudo mais. Embora a contrariedade seja o sentimento que mais resiste à consangüinidade involuntária, você acaba cedendo e passa a ouvir o tratamento com aquele indisfarçável constrangimento. Com o tempo isto não o incomoda mais.

“O tio” começa a soar como um tratamento simpático e até bastante afetivo. Esse “tio” está dominado. Mas tem um “tio” que incomoda e muito. Esse desconcerta , desestabiliza, desarma, desmancha. Dá frio na espinha, borboletas no estômago, umedece as mãos e congela as palavras.
O “oi tio” daquela amiguinha da sua filha mais velha, que foi concebida propositadamente para te atormentar. No início não passava de uma bobagem.


Depois, um sentimento até que compreensível. O ciúme, paternal. Mas ciúme.
Notoriamente você começa a regular os meninos que estão sobrevoando a ave rara.
Aquele “oi tio” começa a soar cada vez mais lânguido, provocativo, insinuante.
É nesta etapa que, tentando manter o controle, você quer crer que tudo não passa de impressão sua, e que ela não está fazendo isso intencionalmente, e que as atitudes dela são próprias dessa geração. Tudo não passa de ingenuidade. É comum nesta fase a garota despertar para a feminilidade. Ela só está se tornando mulher.

-E você?
Só está se transformando num monstro. Que vergonha!

Cheio de remorso e culpa, apela para o bom senso, para a responsabilidade. Pensou até em se ajoelhar no milho antes de dormir, mas a sua artrite o desaconselhou. Um banho frio ajudaria se a temperatura não estivesse 2º centígrados, negativos. Restou então uma avaliação mais precisa e sensata.
Escolher entre os princípios morais ou apelar para os meios libidinosos. Na dúvida do que vem antes, a moral ou a libido, o testosterona dá uma aliviada e você acaba de lembrar que são quase oito horas da noite, e que aquilo que deveria ser o seu único objeto de desejo está completando 43 aninhos e aguarda ansiosa por uma noite especial, com jantar surpresa, telegrama fonado, flores, presentes, troca de cartões apaixonados, e tudo o mais que você esqueceu completamente.
-Você é um crápula!
Com peso na consciência, e um sobrepeso da idade, pensa na família, mulher, filhos, pai e mãe, sogra, irmãos... Canalha!!! Pensou na ninfeta de novo.
De amanhã não passa. Hoje tem o aniversário da mãe dos teus filhos. Logo cedo vai falar com a tua filha e pedir para trazer a amiguinha a fim de esclarecer o mal entendido. Está decidido.
-O que foi? Bebeu?
Se contar pra alguém que tem um fantasma te assombrando, e só porque este espectro tem peitinhos, coxinhas, bundinha, e é toda gostosinha, e só tem l7 aninhos, vão é te internar.
Quando souberem que se trata da amiguinha da tua filhinha, aí vão é te prender.
E se disser que ela é apenas teu sonho de consumo, vão é te matar.
Por enquanto, administrar a situação é prioridade. Não deixar transparecer que você age como um babaca, tarado e babão é o caminho. Manter essas mãos sob controle é o pedágio.
As providências devem ser tomadas imediatamente.
Toda a tentação deve ser evitada. A começar por não ficar sozinho com a criança em questão, seja qual for a situação. Dar início a aquela reforma na casa da praia já.
Melhor, venda a casa de praia. Transforme a piscina da casa na cidade num criatório de rãs. Temos que acabar com os banhos de sol. Pensando bem, mande arrancar a grama e plantar urtiga. Vamos evitar exposições em trajes sumários.
Melhor ainda. Vá morar num apartamento. Sem sacada, que é pra não dar idéia. Caso nada disso resolva então teremos que procurar ajuda profissional. Um psicólogo de sua inteira confiança. Ele certamente encontrará a solução.
Afinal é para isso que você paga a esse picareta uma fortuna por mês.
Só mais uma última recomendação.
Se por acaso, ele começar a ficar entusiasmado quando você estiver fazendo uma descrição mais detalhada dos atributos do anjinho, seja macho.
Vá logo dizendo que não adianta ficar animadinho, que você chegou primeiro, e que... que ele deveria estar envergonhado pois trata-se justamente da filha dele.
Agora, não procrastine a situação só por causa de um detalhezinho à toa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dadinho, o Companheiro

Difícil nos dias atuais podermos nomear amigos os quais se pode contar incondicionalmente.
Pois Dadinho era o cara. Diziam até que: “O Dadinho é parceiro de cagar no mato de mão dada”.
E era. Jamais deixaria alguém em maus lençóis. Há menor possibilidade de alguém das suas relações se deparar com alguma dificuldade, lá estava Dadinho tomando a frente.
“Companheiro meu não passa constrangimento”. E não passava.
No tratante de relacionamento com garotas era onde Dadinho fazia valer sua reputação. Sempre que precisassem de alguma abordagem mais complicada, era só chamar o “Dadinho”.
- Dadinho é seguinte; estou afim de convidar a Bernadete para irmos ao cinema, só que tem um probleminha. Ela não desgruda daquela amiga. Que tu acha que eu devo fazer?
- Compra os ingressos. A feia é minha.
Topava todas. Colou fama desde o colegial por isso. Solidariedade.
“A velha é minha! A vesga? Deixa comigo”.
Quando eu lhe disse certa vez que a amiga da minha vítima era um pouco gorda; pouco era pouco. Era muito gorda. Dadinho não se encolheu:
-Tá me estranhando? Prá uma amizade do tamanho da nossa o que são uns quilinhos a mais?
Quando a situação envolvia duas irmãs então, era especialista.
- Eu pego a irmã da miss.
Chegou um ponto em que “o” convidado era o “Dadinho”.
Ele passou a ser assediado pelas gurias de poucos atrativos. Aposta com orgulho, que até hoje, ninguém comeu tanta gente quanto ele daquela turma de 86.
Tinha cara de bom samaritano, era bem apessoado, tinha boa conversa, sem vícios. Só a mania de pegar carne de segunda.
Depois de muitos anos encontrei com o “Dadinho” em Curitiba. Marcamos um café para colocar os assuntos em dia e rememorarmos nossa trajetória juntos. Damos muitas gargalhadas, passamos do café para o chopinho e deste para o vinho num restaurante simpático e muito bem freqüentado.
Tive um rasgo de encorajamento e resolvi tirar uma curiosidade que me acompanhava desde aqueles tempos. Perguntei ao Dadinho o porque daquele fetiche com as feias, as velhas, as gordas, as tísicas, enfim...?
Outra virtude do Dadinho era não mentir à um companheiro.
- Fetiche que nada. Acontece que enquanto vocês se esforçavam para obter êxito com as bonitinhas tomando um não em 98% da investidas e se desgastando com a maioria delas, eu obtinha praticamente 100% de aproveitamento. E mais. “As minhas” acabavam acreditando que seria a última oportunidade na vida em que seriam felizes, se entregavam sem o menor pudor e ainda contavam prás amigas.
Dadinho sempre me surpreendera, positivamente. Estava diante de um estrategista.
E não se furtaria desta oportunidade.
- Tenho uma surpresa prá ti!
Dito isso, adentram a porta do restaurante duas mulheres. Uma a deusa da exuberância e elegância. Os prazeres da carne enfiado dentro do pretinho básico. A outra pertencia às forças armadas. Era o legítimo canhão.
No meio do caminho elas cochicham algo entre si. Coisas que aconteciam desde os tempos de 86. Uma delas vai em direção ao toilete. A linda e deliciosa atravessa o salão causando silêncio absoluto no ambiente. Coisas que só se vê em filmes publicitários de produtos de beleza. Vem esparramando libido em slow-motion, determinada em direção a nossa mesa. Olhando direto nos meus olhos.
- Você deve ser o Edilson? De tanto o Dadinho falar do companheirismo de vocês, não via a hora de conhecê-lo.
Esse era o Dadinho!
E ela, a Marília, aquele exemplar híbrido da espécie, a esposa dele.
Antes que o “panzer” retornasse com alguma idéia, atônito, desiludido e boquiaberto, me sentindo traído pelo “companheiro”, elogiei aquela beleza espetacular, disse que tinha sido um prazer, agradeci e me despedi levando uma lição:
Não existe essa coisa de “companheiro” para sempre.
Tudo é uma questão de interesse personalista.
O canalha comia o pão que o diabo amassou e até o próprio diabo, se preciso fosse, tão somente com intuito de construir sua plataforma de campanha.
Assim que chegou onde queria, acabou a parceria. Pensa estar acima do bem e do mal o cretino. Soube também que o farsante está envolvido em todos os tipos de escândalos, falcatruas, vigarices, propinagem e formação de quadrilha.
Portanto, cuidado. Toda a vez em que alguém vier com essa ladainha de “cumpanhêru e cumpanhêra”, acione o “puta merda” e caia fora. Eles não são de confiança.