Juça, o estudante de teatro que fora escorraçado do convívio familiar por ter esboçado suas pretensões artísticas, vira naquele anúncio de jornal pedindo garçom, uma oportunidade que lhe acenava na aproximação maior do seu objeto de desejo. Vivenciar momentos no convívio com artistas e intelectuais. Poderia estar se abrindo um portal naquele final de século.
“O Último Ato” era “O” bar.
E o Juça era o cara.
A vida ali, girava em torno do teatro, das artes plásticas, da música, da dança, e demais arremedos cênicos. Ver pelas mesas os atores, diretores, autores, músicos, produtores, auxiliares, técnicos, prostitutas, bêbados, intelectuais, e muitas outras deformações artísticas, todos saídos diretamente dos seus espetáculos, exibindo-se uns aos outros o que tinham de melhor, e também o de pior, para Jucelindo, aspirante a teatreiro, agora garçom, tinha nas mãos o circo dos horrores.
Alguns dos freqüentadores, nunca saíram dos seus personagens. Quando acabava a sessão na única sala de teatro da cidade, arrastavam uma performance pela vida afora numa sinfonia interminável de um concerto inacabado. E junto a ela, parte da platéia disposta a ser sodomizada intelectualmente.
O “Último Ato” só fechava quando não houvesse mais ninguém em condições de suportar a náusea, o aroma ácido de urina, maconha e vomito espalhado pelo ar daquele ambiente bizarro.
Uma ex-vedete oferecia seus préstimos pelo salão, paramentada em sua alegoria. Um misto de travesti que nasceu mulher gostaria de ser gay sem abandonar a condição de puta, resfolegava suas gengivas sedentas num falo, enquanto derramava as tetas caídas sobre flácidas dobras abdominais.
A performance dos travestis no pequeno palco concorria com as cenas libidinosas de um velho diretor que masturbava um garoto da técnica. Por uma semana apenas, desde que o bar iniciara suas atividades havia distinções entres os “toaletes” masculinos e femininos. As portas foram retiradas. A escolha era liberada. Defecar. Urinar. Sexo anal. Oral... Tudo em tempo real.
A infinita diversidades de drogas era outro atrativo indispensável.
A vizinhança já tinha tentado fechar o “Último Ato” de todas as formas legais. Nada funcionou. Autoridades policiais, judiciárias, eclesiásticas nunca fizeram nada. Do contrário, iriam soltar seus demônios onde?
As festas temáticas começaram a arregimentar um público mais alternativo. Na verdade um pretexto para aqueles que tinham algo reprimido querendo pular prá fora pelos orifícios do corpo, e sabedores de que isso poderia acontecer a qualquer instante, encontravam ali uma forma de ir se familiarizando com esse universo, digamos, mais alternativo.
Por normas da casa, Juça estava orientado a não expressar-se a respeito do que vira, ouvira ou sentira sob ameaça de ser escorraçado mais uma vez. Portanto, melhor obedecer.
Até porque ninguém socialmente equilibrado acreditaria que estas personagens pudessem existir além do imaginário de um garçom.
Havia o risco ser considerado louco. Dado como pervertido e mentiroso. Na sábia ignorância Juça silenciava uma vez mais ao baixar a cortina de ferro dando por encerrada mais uma sessão do “Ultimo Ato”.
Creiam. Esta cidade encontra-se hoje em estado de falência cultural. E ela existe. Os performáticos do “Último Ato” se organizaram. Criaram associações, fundações, ocupam cargos de confiança na administração pública, são membros de conselhos, curadores e outros tantos.
Aquela província com mania de metrópole é hoje uma velha prostituta, sempre disponível ao deleite da clientela que a usa, e a seguir, a abandona sob os lençóis puídos e suas manchas amareladas. As performances saíram dos domínios do bar e ocupam todo o grande tablado em que se transformou a cidadela. Uma farra para a “intelectuália”, ao ar livre. Para este espetáculo, não se cobram ingressos. Cobram-se impostos.
Sobre “O Último Ato”?
Juça hoje, é o novo proprietário do bar.

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