quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

VERO, O VEROSSÍMIL EM NOITE FELIZ


A dissimulação, a futilidade, a hipocrisia e a cara de pau das pessoas, exercem o efeito arrasador da descarga de uma bomba de néutrons nas partículas cerebrais, sensíveis e pouco pacientes do Vero.

Aconselhado a procurar ajuda profissional, tornou-se avesso à festas e reuniões sociais. “Não sou homem de falsidades ideológicas. Muito menos verbais. Não tenho paciência para mentiras e se não querem ouvir a resposta, não façam a pergunta.”
Contar com presença tão transparente em algum evento, era e é, tarefa de gincana.
Abandonara uma carreira promissora na medicina por causa da postura direta e objetiva.
- Não aconselharia a senhora a fazer uma cirurgia plástica nas suas condições.
- Quais seriam os riscos doutor?
- Riscos? Afirmo sem medo de errar que eu estaria desperdiçando meu tempo.
- Desculpe. Mas preciso ouvir uma segunda opinião.
- Muito bem. A senhora também além de burra e surda, e é uma catástrofe de tão feia!”
Depois de anos, acreditando na recuperação de Vero, seria conveniente reunir a família, na sua casa e organizar a ceia de Natal. Uma forma de devolvê-lo ao convívio social.
Incontáveis recomendações para que se contivesse, do contrário, passaria a dormir na soleira da porta abraçado no cachorro.
Eis que é chegada a hora. Fazia frio lá fora.
Ainda assim, por várias vezes pensou em emitir opinião. “Umazinha” que fosse.
Tudo corria bem. Para as vítimas do Vero, que até então se consumia em cólicas com os horrores de linguagem que ali proliferavam em absurda abundância.
Foi a cunhada, casada com o assessor de candidato a alguma coisa que apertara a tecla “over”.
- Paiê. Não é verdade que continuamos em lua-de-mel após quinze anos de casamento?
A inevitável dissimulação.
- Com certeza. Estamos passando por momentos de profundas e verdadeiras transformações por conta de uma nova estratégia de desenvolvimento acelerado e futurista onde o grande beneficiado é sem dúvida, o nosso contribuinte partícipe.
Uma gota gélida de suor escorre pela fronte pálida; desce rasgando a carne até atingir a genitália em total consumição. Alguns segundos e a explosão se dá em proporções devastadoras. Foi demais. Dentro da própria casa?
Agenor, “o cão bull mastiff babão” de quase cem quilos iria ganhar companhia.
Vero começou a coçar os pés esfregando um no outro e a se retorcer todo na cadeira. Subiu um vermelhão pelo pescoço e nas orelhas estava concentrado quase todo o sangue do corpo. Num salto arrancou a cortina da sala dobrando-a grosseiramente como quem junta lençóis da cama depois de ouvir um: “Fora daqui!”
Já em direção a porta encarou aquele amontoado de cínicos aparvalhados e desferiu:
- Podem até mentir, mas pelo menos façam isso com alguma responsabilidade.
A esposa desmaiou.
Vero olhou para o irmão que tentou se esconder atrás da samambaia.
- Primeiro: Você sempre foi um cretino e agora se mostra um frouxo que não tem coragem de dizer a verdade. Bando de safados! Vocês, metidos até as entranhas em política, não tem currículo, tem antecedentes. E aquilo que denominam de coligações e alianças, eu chamo de quadrilha.
- Segundo: Você é um doente. Nenhum homem de sã consciência seria capaz de comer este bagulho aí por quinze anos.
A irmã mais velha tentou reagir mas resolveu recuar sob aquele olhar ameaçador. Não adiantou.
“Pouca vergonha! Uma mulher de cinqüenta e tantos anos que pensa que salão de beleza é o túnel do tempo. Usa os modelitos das netas e vai sacudir os mondongos nos bailinhos por aí, onde até as pernas das mesas tem varizes. E o marido, corno, pensa que ela é assistente social de uma ONG para terceira idade.”
A esposa volta a si.
- Perdi alguma coisa?
Não deveria ter recobrado os sentidos. Muito menos ter proferido a questão.
-Perdeu sim . A noção do ridículo. Onde já viu uma mulher do teu tamanho e peso usar vestidos estampados. Parece um sofá de seis lugares!

Dos parentes nunca mais se ouviu falar.
Agenor, o cão, fugiu para o canil municipal.
Se recusa terminantemente ser fotografado de corpo inteiro.
Ah... Da politicalha? Todos. Sem exceção, dizem: 

- Vero é tão somente um sujeito...assim...um tanto...“folclórico”.