Havia um tempo em que leiteiro era o cara que entregava o leite na porta de nossas casas. E este vinha diretamente da vaca. O leite, não o leiteiro.
“Leiterôôô...”! Gritava ele, colocando a clientela a postos com seus vasilhames nas mãos em frente aos portões até o final da rua. O transporte era um caminhão já antigo para época, com uma carroceria de madeira, onde transportava tambos de cobre cheios do produto fresquinho.
Ao ouvir a chamada do leiteiro lá em cima, no morro, corria-se para o portão com a esperança de que naquele dia, faltaria freio no caminhão e este despencaria pela ladeira, batendo os tambos, desgovernado, derrubando tudo que estivesse pelo caminho. Coisa do tipo reação em cadeia, sabe?
Seria a glória!
Passou o tempo e as vacas foram parar dentro das tais caixinhas. Do leiteiro não se ouve mais o chamado e todo mundo precisa andar para além dos portões e indo até os supermercados a fim de adquirirem o precioso liquido a preço de ouro. Uma lástima eu nunca poder ver a nossa rua toda revirada como sempre imaginei.
Com os anos, algumas imagens vão se apagando da nossa memória, já outras teimam e seguem por mais tempo perpetuando-nos. Pois quando o caminhão do leite já andava beirando a forma de um borrão de memória apenas, vi como por mágica a personificação do mesmo. Bem assim.
-Era ele! O próprio! Humanizado. Destrambelhado!
Este “caminhão do leite” sem freio, desgovernado e fazendo estrago por onde passava, estava longe de ser um veículo antigo com carroceria de madeira. Também não tinha o leiteiro que entregava o leite, mas era ao feitio daquele caminhão de leite de outrora.
Uma criatura com um metro e noventa de altura, comportamento, trejeitos, deslocamentos e delicadeza cetácea e que lembravam um elefante com espasmos dentro de uma loja de cristais. Um rinoceronte com epilepsia.
Quem disser que conhece alguém desastrado não conhece “o caminhão do leite”.
Dentre as muitas estripulias, vão aqui algumas das suas sutilezas.
Contava com um timbre de voz privilegiada. Um tenor gravíssimo. Por conseguinte sempre as voltas com o canto coral. Inicialmente como cantor. Com o passar dos tempos as coisas iriam piorar.
Numa das tantas festividades comemorativas “pós-récitas” de canto coral, um jantar fora oferecido na casa de uma das integrantes do grupo.
Bem antes dos drinques, a filha da dona da casa, uma jovem no esplendor dos seus 16 aninhos, com a vivacidade da juventude e aquele aroma criminoso estampados nos olhinhos nem tão inocentes assim, aborda nosso personagem a fim de fazer as honras da casa e puxar assunto.
-Oi! Eu sou a Martinha, filha da Norma. Lembra de mim?
Sem tirar os olhos daqueles dois peitinhos tenros e eretos como mísseis apontados para o tarado, que com a língua buscou o fio de baba que escorregava do canto da boca pronto pra deslizar dentro do decote da ninfeta, desabafou num suspiro orgásmico:
-Nooosssaaa! Como tu cresceu...
Silêncio absoluto.
Um chamado ecoou alto, claro, inocente e desesperado:
- Mãnhêêêêêêêêê!!!!!
- Mãnhêêêêêêêêê!!!!!

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