terça-feira, 3 de agosto de 2010
O Último Ato – Cena II
Jucelindo, o Juça, agora estava do outro lado do “balcão”.
Ousava dizer aos mais próximos:
-Agora a vida cultural acontecerá de maneira realmente participativa. Todo aquele que tiver algo a dizer terá espaço, terá voz. De fato e de direito.
A idéia de Juça, se é que ele tinha uma, seria re-abrir o “Último Ato” a toda e qualquer pessoa que quisesse ou se atrevesse se expor diante de outras tantas também ávidas por qualquer coisa. Fosse o que fosse.
O discurso era o de recuperar o tempo em que o “Ultimo Ato” era o berço das manifestações culturais da “Província”.
Para Juça isso deixara de ser uma idéia. Para ele, e só para ele, isto tinha conotações mais nobres- A Missão!
Nessa empreenda, Juça contava com “conselhos” de colaboradores que viveram aquela época dourada, prateada, purpurinada, de muito laquê, rouge... e “otras cositas más”.
Num encontro para discutir algumas medidas e colocar o projeto do Juça em prática, alguém perguntou:
- Qual é exatamente a tua idéia ? O que tu queres desse teu projeto... Qual é o público alvo?
-Sei lá !
-Como assim???
-Eu quero que aconteça. Sem essa frescura de muito “organizadinho”...
E complementou: - O espaço tá aí... Vem quem quiser... é só se inscrever e está dentro.
Outro incauto:
-Mas qual é o perfil desse espaço, como vamos divulgar isso? O “Ultimo Ato” é o quê? O que o “bar” oferece ao público ?
-Tem de tudo... Músicos de várias tendências. Tem erudito, tem clássico, tem pagode, tem MPB, show de variedades, quero fazer leituras dramatizadas, exposição de quadros, hora do conto, street dance, tango, funck... Futuramente, penso num Torneio de Arremesso de Anão.
-Bem, me parece que tem uma multiplicidade cultural bastante abrangente. Disse um dos “pensantes” que foram ao encontro.
-É isso aí! Tu é o único que captou a idéia.
Juça tinha um brilho no olho ao dizer aquilo com absoluta convicção de sucesso... Era o sonho do ex-garçon, agora, dono do “Último Ato”, prestes a se materializar.
Sua experiência no convívio com “os arteiros” de outrora, dava-lhe credenciamento para levantar este novo “circo”. Pelo menos ele achava que sim.
Quando não se é artista, fica difícil entender essa “espécie”. Tratar com, pior ainda.
Na teoria do Juça, é fazendo que aprende!
Segundo ficara entendido, a coisa andaria assim:
O espaço seria aberto de forma democrática e irrestrita.
Não haveria cobrança de couver artístico, ingresso, campanha do “kilo”, doação de agasalho, nem de órgãos... pelo menos os vitais...
Usariam o site do “Último Ato” para estabelecer contatos, fazer divulgação, convidar os artistas, postar fotos, vídeos... mostrar ao mundo como é que se faz!
Ah! Importante... Muito importante.
Assim como não há receita, os participantes não recebem cachê.
Tudo na ESPONTÂNEADADE...
Depois de alguns dias, lá estava .
O Último Ato de volta à cena.
Tudo pronto. Estréia marcada. Casa cheia... E agora?
Agora não tem mais jeito!
Som, Luz... Ação...
Como uma viagem no tempo o quadro era uma releitura do Último Ato de “trêsontonte”.
A platéia era formada na sua maioria pelo elenco.
Explico:
Lá pelos anos distantes, no primeiro “Ultimo Ato”, os freqüentadores nunca saíam dos seus personagens.
“Quando acabava a sessão na única sala de teatro da cidade, arrastavam uma performance pela vida afora numa sinfonia interminável de um concerto inacabado. E junto a ela, parte da platéia disposta a ser sodomizada intelectualmente.
O “Último Ato” só fechava quando não houvesse mais ninguém em condições de suportar a náusea, o aroma ácido de urina, maconha e vomito espalhado pelo ar daquele ambiente bizarro”.
Pois agora, não era muito diferente.
Mudara o ângulo. Aliás invertera-se...
As personagens ressurgiram e todos ali tinham antecedentes. Tinham passagem pelo teatro, pelas artes plásticas, pela música, pela dança, ou pelos demais arremedos cênicos. Ver pelas mesas ex-atores, ex-diretores, ex-autores, ex-músicos, ex-produtores, ex-auxiliares, ex-técnicos, ex-bêbados, ex-intelectuais, até ex-prostitutas, e muitas outras deformações artísticas, todos saídos diretamente do “Último Ato” quando este fechara as portas, as quais nunca mais deveria ter aberto, foi um exagero.
Certo era de que nem platéia, nem os “astros” que ali se exibiam ficaram convencidos de que aquilo algum dia poderia tornar-se um movimento de ordem cultural ou qualquer outro coisa em movimento.
Só o infeliz do Jucelindo!
Juça, o ex-garçon “idealista” do projeto é um persistente. Sua crença no formato da ESPONTÂNEADADE, DEMOCRACIA, MULTIPLICIDADE de PERFORMANCES e planejamento zero, manter-se-ía irredutível.
Aquela primeira edição nortearia outras tantas.
Fatalmente, muitas outras histórias.
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